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Doença de Wilson
Dra. Adriana
Maria Alves De
Tommaso
Introdução
-
Descrita, pela primeira vez,
em 1912, por Wilson;
-
Também denominada degeneração
hepatolenticular;
-
Distúrbio primário do
metabolismo do cobre, localizado no fígado, leva ao acúmulo desse metal,
inicialmente no hepatócito e posteriormente em diversos órgãos e tecidos,
particularmente no cérebro, córnea e rins;
-
Metabolismo do
cobre: O
cobre, absorvido no intestino, ao alcançar os hepatócitos liga-se à apotioneína
para formar a Cu-metalotioneína ou é incorporado à ceruloplasmina, retornando
à circulação, ou é excretado na bile. Os dois últimos passos estão
alterados na Doença de Wilson. Na bile, o cobre liga-se a diferentes substâncias,
estando associado a substâncias derivadas ou semelhantes à ceruloplasmina;
-
Incidência ( doença=
30:1000000, portador heterozigoto= 1:100);
-
Herança autossômica
recessiva =>
cromossomo 13, locus 13ql4.3 =>
ATP7B =>
excreção biliar de cobre está marcadamente diminuída e o metal não pode ser
incorporado adequadamente à ceruloplasmina. Conseqüentemente, o cobre em
excesso distribui-se inicialmente no citoplasma, provavelmente ligado a uma
forma não-tóxica de metalotioneína, e posteriormente aparece em densos grânulos
nos lisossomos. O cobre livre (não ligado à ceruloplasmina), liberado na
circulação a partir de hepatócitos lesados, passa então a se acumular
em diversos órgãos;
-
Mais de 40 mutações
descritas.
Quadro
clínico
-
Variável;
-
Habitualmente no final da infância
e na adolescência;
-
Cerca de 40% inicia-se com
doença hepática, várias formas de apresentação (hepatite crônica ativa,
hepatite fulminante, cirrose assintomática, elevação de
transaminases);
-
Insuficiência hepática
fulminante =>
sinais de alerta =>
anemia hemolítica com Coombs negativo, FALC baixa em contraste com altos níveis
de bilirrubina, pouca elevação de transsaminases (sendo AST>ALT);
-
Manifestações
neurológicas: as
estruturas mais atingidas são os gânglios da base. Podem também estar
acometidos o córtex cerebral, a substância branca subcortical, o tálamo, o núcleo
subtalâmico, a substância negra e o cerebelo. Quadro Clínico: As
anormalidades neurológicas são predominantemente motoras e representadas por
distúrbios do movimento tais como distonia, diversos tipos de tremor (postural
ou de repouso), rigidez, bradicinesia, Coréia, atetose, ataxia e instabilidade
postural. A fala e a marcha estão freqüentemente afetadas. A quase totalidade
dos pacientes com quadro neurológico, apresenta cirrose estabelecida. Há ampla
faixa de idade de aparecimento dos sintomas (entre 8 e 50 anos). Na maioria, a
idade de apresentação encontra-se na primeira e segunda décadas de vida,
sendo excepcional acima de 40 anos;
-
Manifestações
oftalmológicas: a mais comum e importante é o anel
de Kayser-Fleisher, que se forma na membrana de Descemet. Pode estar ausente em
até cerca de 50% dos casos com manifestações exclusivamente hepáticas, de
instalação na infância ou na adolescência. Como regra pode-se afirmar que
nas formas neurológicas o anel está sempre presente;
Anel de
Kayser-Fleisher
-
Manifestações
osteoarticulares: geralmente relacionadas à lesão
tubular renal com perda de cálcio e fósforo, a mais comum é a osteoporose,
que pode determinar fraturas espontâneas. Outros tipos de acometimento são
osteomalácia, osteoartrite e osteocondrite dissecante;
-
Manifestações
renais:
predominam as decorrentes de lesão tubular, tais como hiperaminoacidúria,
hiperfosfatúria, hipercalcíuria renal e hiperuricosúria;
-
Manifestações
hematológicas:
hiperplenismo, relacionado à hipertensão portal, e a anemia hemolítica,
decorrente de altos níveis de cobre sérico livre;
-
Manifestações
dermatológicas: sem gravidade, podem estar presentes
sob a forma de hiperpigmentação nos membros inferiores, lúnula azulada e
acantose nigricans.
Diagnóstico
-
Não há um único teste
=> clínica,
bioquímica, história familiar;
-
Ceruloplasmina:
níveis séricos baixos são encontrados em 90% a 95% dos pacientes. Por outro
lado, 20% dos heterozigotos têm níveis séricos baixos de ceruloplasmina, mas
não evoluirão com a doença. Valores baixos também são encontrados em outras
situações;
-
Anel de
Kayser-Fleischer:
é visto quando há manifestações neurológicas. Por outro lado, quando há
lesão hepática, está presente em 55-70% casos;
-
Cobre sérico
total: avalia,
também, o cobre sérico ligado à ceruloplasmina. Portanto, se esta estiver com
níveis muito baixos, o cobre total estará diminuído;
-
Cobre urinário:
quase todos os pacientes sintomáticos apresentarão níveis elevados
(>100mcg/d). Também é importante para acompanhar a aderência ao
tratamento, bem como a eficácia da medicação. Pode ocorrer em outras doenças
hepatobiliares. Sensibilização com a D-penicilamina;
-
Dosagem de cobre no
tecido: padrão-ouro.
Concentração normal = 20-40mcg/g de peso seco. Na doença, costuma ultrapassar 250
mcg/g;
-
Coloração
rodanina:
tecido hepático. Presente em outras doenças colestáticas;
-
Pesquisa de cobre
com radioisótopo: há diminuição da incorporação
de cobre radioativo pela ceruloplasmina. Os testes oferecem grandes dificuldades
técnicas para sua execução e por essa razão são pouco utilizados. Ademais
existe uma sobreposição considerável entre heterozigotos e pacientes;
-
Diagnóstico genético:
inconveniente de só ser aplicável a familiares de pacientes com Doença de
Wilson já diagnosticada. Como vantagem sobre as demais,permite o diagnóstico
logo no primeiro ano de vida;
-
Ressonância magnética:
parecem ser sensíveis para detectar
alterações
precoces em pacientes com a doença. Mostram alterações localizadas com
predileção para os gânglios da base nos casos com manifestações neurológicas.
Essas anormalidades embora não sejam específicas, são altamente sugestivas.
Um sinal considerado característico é o chamado "face do panda
gigante" (mesencéfalo). Outra alteração recentemente descrita em
pacientes com sintomas neurológicos é a presença do claustrum brilhante.
Tratamento
O objetivo é promover o balanço
negativo de cobre, com a finalidade de remover os depósitos anormais desse
metal no organismo. Com essa finalidade, as estratégias de tratamento
empregadas são:
-
Redução da ingestão de cobre (com os meios farmacológicos
disponíveis atualmente, restrições dietéticas drásticas são dispensáveis);
-
Aumentar a excreção de cobre (principal forma de tratamento).
Dieta:
alimentos ricos em cobre (chocolate, nozes, castanhas, cogumelos, cacau, frutos
do mar). Ideal ingerir menos de 0,6mg/dia (normal= 1-5mg/d).
Agentes quelantes
D-penicilamina (distribuída
no Brasil pela Merck Sharp & Dohme, com o nome de CUPRIMINER).
Tem sido usada desde 1956 e é a forma mais importante de quelação do cobre,
com aumento da excreção urinária. Dose: 20mg/kg/d. Duas a quatro doses diárias
são administradas, com dose total variando de 1-2 g/dia.
Plaquetopenia e leucopenia são complicações importantes, ocorrendo
também anemia aplástica e agranulocitose. Toxidade renal (proteinúria e hematúria)
é reversível. Em algumas situações, mesmo após a suspensão da droga,
ocorre progressão para síndrome nefrótica e glomerulonefrite membranosa. Em
caso de piora dos sintomas neurológicos, o tratamento consiste na redução da
dose da medicação. Pode ser necessária a troca da medicação por outro
agente quelante ou sais de zinco, todavia as manifestações neurológicas nem
sempre regridem. A medicação é segura durante a gravidez.
Trientine (trietilenotetramina):
do mesmo laboratório, nome comercial= SYPRINER, ainda não disponível
no Brasil. É uma alternativa bem razoável para os pacientes com reações
colaterais importantes à D-penicilamina. Também aumenta a excreção urinária,
porém é menos potente. É efetivo por via oral, com dose máxima de 2 g por
dia para adultos e 1,5 g para crianças, divididas em duas a quatro tomadas, em
jejum. Infelizmente, pacientes que apresentam reações adversas à
D-penicilamina, como formas graves de lúpus e lesões renais, podem também ser
suscetíveis ao trientine.
Acetato ou
Sulfato de Zinco:
age bloqueando a absorção de cobre pelo trato intestinal. Sua maior vantagem
é a ausência de efeitos colaterais. O zinco induz a síntese de metalotioneína
(proteína carreadora de metais que oferece sítios de ligação para o cobre
livre). Acredita-se que a diminuição da absorção do cobre deva-se à indução
da metalotioneína intestinal , que se ligaria ao cobre absorvido na mucosa
intestinal. Em conseqüência à descamação da mucosa intestinal, o cobre
seria eliminado nas fezes. Poderia também ocorrer indução de uma metalotioneína
hepática, que transformaria o cobre tissular em não-tóxico. Os sais de zinco
devem ser reservados para tratamento de manutenção, após o paciente ter sido
eficazmente tratado com quelantes de cobre. Há quem o considere indicado no
tratamento inicial de pacientes assintomáticos e de mulheres grávidas. A dose
de sulfato de zinco é de cerca de 200 mg, três vezes ao dia (75-300 mg/dia do
zinco elemento), 30-60 minutos antes das refeições. A administração com o
estômago vazio justifica-se porque muitas substâncias presentes na dieta
previnem a eficácia da medicação. O efeito colateral
mais
comumente observado com o uso do sal sulfato é a irritação gástrica, que
pode ser contornada com sua substituição pelo sal acetato, que é melhor
tolerado e deve ser empregado também em três doses diárias de 170 mg cada.
Transplante
Hepático:
reservado
para os casos onde não há resposta ao tratamento.

Artigo
criado em: 2003
Última atualização: 2003
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