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Varizes Gastroesofágicas

Dr. Stéfano Gonçalves Jorge

INTRODUÇÃO

   Praticamente todo o sangue que passa pelo tubo digestivo, desde a parte final do esôfago até o ânus, recebe os produtos da digestão e absorção dos alimentos. Esses produtos não podem ser distribuídos diretamente aos outros órgãos, pois muitos são tóxicos ou precisam ser transformados antes de entrarem na circulação.


( clique na figura para ampliar )

   Esse sangue corre por veias que vão se unindo até chegar na veia porta hepática, que é a principal fonte de sangue do fígado ( há ainda a artéria hepática, que é necessária para trazer mais oxigênio ao fígado ).

   No interior do fígado, o sangue flui da veia porta para veias cada vez mais finas, até que chega aos sinusóides (aonde os hepatócitos processam os produtos da digestão, além de muitas outras funções) e depois é coletado pelas veias centrolobulares, que levam o sangue para fora do órgão até as veias hepáticas, depois para a veia cava inferior e o coração, de onde o sangue com os nutrientes será distribuído por todo o organismo.

   Na cirrose, há a formação de cicatrizes no interior do fígado, distorcendo toda a sua estrutura, o que prejudica o fluxo de sangue. Com o fluxo reduzido, a pressão do sangue em todas as veias aumenta, o que chamamos de hipertensão portal. Essa hipertensão no sistema porta hepático pode trazer diversas conseqüências, como inchaço nas pernas, falta de ar (síndrome hepato-pulmonar), falência dos rins (síndrome hepato-renal), ascite e a dilatação de veias (varizes).

CLASSIFICAÇÃO ENDOSCÓPICA

   As varizes esofágicas podem ser classificadas endoscopicamente da seguinte forma:

Classificação da Sociedade Japonesa de Pesquisa em Hipertensão Portal

Característica

Código

Descrição

Cor fundamental

CW

Varizes brancas (white) ou com a mesma cor da mucosa

CB

Varizes azuladas (blue), acinzentadas ou arroxeadas

Sinal da cor vermelha*

RWM

Mucosa em vergão vermelho (red wale marking - RWM)vênulas dilatadas, orientadas com aspecto de marcas de açoite

CRS

Manchas em cor de cereja (cherry red spot): manchas avermelhadas, arredondadas com cerca de 2 mm

HCS

Mancha hematocística (hematocystic spot): pequenas projeções arredondadas de cor vermelha ou arroxeadas com cerca de 4 mm de diâmetro e semelhantes a uma bolha de sangue, geralmente solitária em cordão tortuoso e de grosso calibre

DR

Rubor difuso (diffuse redness): áreas avermelhadas difusas, sem elevações ou depressões

Forma

F1

Varizes retas

F2

Varizes tortuosas, de calibre pouco aumentado (menor que 1/3 da luz)

F3*

Varizes tortuosas, de grosso calibre (maior que 1/3 da luz)

Localização

Ls

Locus superior: acima da bifurcação traqueal

Lm

Locus medial: na área da bifurcação traqueal

Li

Locus inferior: no terço distal de esôfago

Esofagite

E+

Presente

E-

Ausente

Locus gástrico

Lg-

Ausente

Lgc

Varizes em cárdia

Lgf

Varizes em fundo gástrico

Exemplo: Varizes esofágicas azuladas, com sinal da cor vermelha presente (cherry red spot e red wale marking) e em grande número, de grosso calibre, a partir de terço proximal, sem esofagite e com varizes gástricas em cárdia: Cb Rc+(CRS+++ RWM+++) F3 Ls E- Lgc+; * considerados sinais de varizes de alto risco de sangramento.

   As varizes gástricas podem ser classificadas endoscopicamente da seguinte forma:

Classificação endoscópica das varizes gástricas

Localização

Código

Descrição

Varizes gastroesofágicas

GOV1

continuação de varizes esofágicas e se extendem por 2 a 5 cm abaixo da transição gastroesofágica pela pequena curvatura do estômago

GOV2

extendem-se para o fundo gástrico

Varizes gástricas isoladas

IGV1

varizes gástricas isoladas localizadas no fundo gástrico a poucos centímetros da cárdia

IGV2

varizes gástricas isoladas que ocorrem em qualquer local do estômago

Sarin SK, Kumar A. Gastric varices: profile, classification and management. Am J Gastroenterol 1989;84:1244-9


esôfago

HISTÓRIA NATURAL

   Uma das mais importantes complicações da cirrose é sem dúvida a formação de varizes no esôfago. Essas varizes podem crescer a partir da porção mais distal (inferior), inicialmente finas e retas, mas podem evoluir até se tornarem grossas, azuladas, tortuosas e podem chegar até a porção proximal (superior) do esôfago. O tempo para o crescimento das varizes depende principalmente do grau de fbrose e hipertensão na veia porta e de predisposições individuais.


Varizes esofágicas vistas na endoscopia

   Ao momento do diagnóstico de cirrose, 40% dos indivíduos com doença compensada já possuem varizes esofágicas (e 60% dos com ascite). O risco de aparecimento de varizes ao ano é de cerca de 5% e o de crescimento das varizes de pequenas para grandes é de 10-15% por ano. Recentemente, um estudo recente, publicado a revista Gastroenterology de agosto de 2004 por Merkel e colaboradores, sugere que o uso de beta-bloqueadores reduz a velocidade de crescimento das varizes. De fato, o tratamento com medicações, a abstinência alcoólica (na cirrose por álcool) e o tratamento da causa da cirrose tendem a reduzir as varizes ou o seu crescimento, assim como outras complicações da cirrose.

   A importância do tamanho das varizes está no risco de sangramento. Varizes finas tem risco de sangramento de 7% em 2 anos, enquanto que varizes grandes tem o risco de 30% em 2 anos. A ocorrência de hemorragia por varizes esofágicas é um evento catastrófico na vida de um cirrótico. Além do risco imediato de óbito de 5 a 8 % durante o sangramento, estima-se que o risco de óbito em 6 meses após o sangramento esteja entre 20 e 50%, por novos sangramentos ou outras complicações da cirrose. Além do calibre das varizes, a presença de "sinais da cor vermelha" indicam que as paredes estejam mais finas, facilitando o sangramento.


Varizes esofágicas com sangramento

   Com a alta mortalidade decorrente do sangramento, todo portador de cirrose deve estar alerta quanto a sinais de hemorragia (tabela abaixo). Se observar algum desses sinais, deve permanecer e jejum e procurar um serviço de emergência médica o mais rápido possível.

Sintomas sugestivos de sangramento

Fezes enegrecidas e fétidas

Palidez e mal estar

Vômitos com sangue

OPÇÕES DE TRATAMENTO

   Mesmo que em 40 a 50% dos casos o sangramento pare espontaneamente, o risco de ressangramento nos próximos 5 dias é muito alto. Os primeiros cuidados durante e logo após o sangramento são a reposição líquida e/ou de sangue perdidos. O tratamento farmacológico para a redução da pressão nas varizes (através de vasodilatação esplâncnica) deve ser utilizado o mais precocemente possível (com octreotide ou somatostatina) e é tão eficaz na interrupção do sangramento quanto a terapia endoscópica. Além disso, para prevenir infecções, é obrigatório o uso de antibiótico (geralmente norfloxacin).

   Apesar da eficácia do tratamento farmacológico, o ressangramento é alto se não for realizado um tratamento endoscópico nas primeiras 12-24 horas. As principais opções de tratamento endoscópico são a escleroterapia, aonde injeta-se um agente esclerosante no interior da variz, que se fecha e interrompe o sangramento, e a ligadura elástica. A principal complicação desse tratamento é a piora da hemorragia (já que há uma perfuração da variz) e a perfuração esofágica, mas são incomuns.

EscleroterapiaEscleroterapia
Escleroterapia de varizes esofágicas. O objeto branco à esquerda é o cateter com agulha, que está no interior da variz (Gastrocentro - Unicamp)

   Há a opção de escleroterapia com a injeção de uma cola biológica (geralmente cianoacrilato - Histoacryl®) e varizes resistentes ao tratamento ou em locais sabidamente de pior resposta à escleroterapia habitual e à ligadura elástica, como varizes de fundo gástrico. Pela dificuldade de realização desse tratamento e o risco (embolização da cola para o pulmão, perda do cateter e/ou do aparelho de endoscopia), são poucos os centros que o realizam.

   A ligadura elástica é um tratamento relativamente novo, aonde coloca-se um anel elástico ao redor da variz, provocando a coagulação de sangue no seu interior e o desaparecimento progressivo da variz ao longo de 2-5 sessões. Após poucos dias, forma-se uma úlcera e cai o anel, tornando essa fase de pequeno risco de hemorragia. Mesmo assim, a ligadura elástica é superior à escleroterapia tanto em eficácia quanto em segurança.

Ligadura ElásticaLigadura ElásticaLigadura Elástica
Ligadura elástica de varizes (Gastrocentro - Unicamp)

Endoscopic varical ligation (EVL)Complications of EVS and EVL
Esquerda: varizes após ligadura - Direita: úlceras após ligadura

RECOMENDAÇÕES DE TRATAMENTO

   Com os conhecimentos sobre a fisiopatologia da cirrose e da hipertensão portal que temos hoje, podemos dividir o tratamento das varizes em:

  • profilaxia pré-primária: é a prevenção do surgimento das varizes
  • profilaxia primária: é a prevenção do primeiro sangramento
  • tratamento dos episódios de hemorragia
  • profilaxia secundária: é a prevenção de novos episódios de sangramento

   Recomendações para profilaxia primária:

  • pacientes sem varizes devem realizar reavaliação endoscópica a cada 2-3 anos
  • pacientes com varizes pequenas devem realizar reavaliação endoscópica a cada 1-2 anos
  • pacientes com varizes médias ou grandes devem realizar tratamento com bloqueadores não seletivos se não houver contra-indicações
  • pacientes com varizes médias ou grandes com intolerância ou contra-indicação ao tratamento com beta-bloqueadores podem ser submetidos a ligadura elástica de varizes
  • a associação entre beta-bloqueadores e ligadura elástica de varizes parece ser mais eficaz que cada uma isoladamente, mas são necessários mais estudos para esclarecer as vantagens e complicações da associação
  • o tratamento deve ser continuado indefinidamente

   Recomendações para profilaxia secundária:

  • todos devem ser tratados, com beta-bloqueadores não seletivos ou ligadura elástica; há evidências que sugerem melhor eficácia na associação de ambos
  • se possível, o efeito da medicação na pressão portal deve ser monitorada e, se necessário, deve-se associar mononitrato de isossorbida
  • a associação entre beta-bloqueador e tratamento endoscópico (preferencialmente ligadura elástica) é recomendável se houver sangramento em cirrótico utilizando qualquer dos dois métodos isoladamente
  • se houver ressangramento com essa associação, pode ser necessária a descompressão portal cirúrgica ou por TIPS

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Artigo criado em: 29/08/2005
Última atualização: 21/12/2006

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