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Dr. Stéfano Gonçalves Jorge
INTRODUÇÃO
Praticamente todo o
sangue que passa pelo tubo digestivo, desde a parte final do esôfago até o
ânus, recebe os produtos da digestão e absorção dos alimentos. Esses
produtos não podem ser distribuídos diretamente aos outros órgãos, pois
muitos são tóxicos ou precisam ser transformados antes de entrarem na
circulação. Esse sangue rico em nutrientes e toxinas corre por veias que vão
se unindo até chegar na veia porta hepática, que é a principal fonte de
sangue do fígado (há ainda a artéria hepática, que é
necessária para trazer mais oxigênio ao órgão).
  
No interior do fígado,
o sangue flui da veia porta para veias cada vez mais finas, até que chega aos
sinusóides (aonde os hepatócitos processam os produtos da digestão, além
de muitas outras funções) e depois é coletado
pelas veias centrolobulares, que levam o sangue para fora do órgão até as
veias hepáticas, depois para a veia cava inferior e o coração, de onde o
sangue com os nutrientes será distribuído por todo o organismo.
  
Na cirrose,
há a formação de cicatrizes no interior do fígado, distorcendo toda a sua
estrutura, o que prejudica o fluxo de sangue. Com o fluxo reduzido, a pressão
do sangue em todas as veias aumenta, o que chamamos de hipertensão
portal.
Essa hipertensão no sistema porta hepático leva a dilatação à montante (das
veias que desembocam na veia porta), o que pode trazer diversas
conseqüências, como inchaço nas pernas, falta de ar (síndrome
hepato-pulmonar), falência dos rins (síndrome hepato-renal), ascite e
a dilatação de veias (varizes).
HISTÓRIA NATURAL
Uma das mais importantes complicações da cirrose é sem dúvida a formação de
varizes no esôfago. Essas varizes podem crescer a partir da porção mais distal
(inferior), inicialmente finas e retas, mas podem evoluir até se tornarem
grossas, azuladas, tortuosas e podem chegar até a porção proximal (superior) do
esôfago. O tempo para o crescimento das varizes depende principalmente do grau
de fibrose e hipertensão na veia porta e de predisposições individuais.

Varizes esofágicas vistas na endoscopia
Ao momento do diagnóstico de cirrose, 30 a 40% dos indivíduos com doença
compensada já possuem varizes esofágicas (e 60% dos com
ascite). Em pacientes sem varizes ao diagnóstico, o risco de aparecimento
das mesmas em um ano é de cerca de 5% (e de 20% em 5 anos) e o de crescimento
das varizes de pequenas para grandes é de 5 a 30% por ano. Um estudo publicado
na revista Gastroenterology (agosto de 2004) por Merkel e colaboradores
sugere que o uso de beta-bloqueadores reduz a velocidade de crescimento das
varizes, embora nenhum estudo de grande porte tenha sido publicado
posteriormente para confirmar ou descartar essa possibilidade. Mas há um corpo
de evidências suficiente sugerindo que o tratamento com medicamentos, a
abstinência alcoólica (na cirrose por
álcool) e o tratamento da causa da cirrose tendem a reduzir as varizes ou o
seu crescimento, assim como outras complicações da cirrose.
A importância do tamanho das varizes está no risco de sangramento. Varizes finas
(<3mm de diâmetro) tem risco de sangramento de 7% em 2 anos, enquanto que
varizes grandes (>5mm) tem o risco de 30% em 2 anos. A ocorrência de hemorragia
por varizes esofágicas é um evento catastrófico na vida de um cirrótico. Além do
risco imediato de óbito de 20 a 50% durante primeiro sangramento (e 30% nos
subsequentes), estima-se que o risco
de óbito em 6 meses após o sangramento esteja entre 20 e 50%, por novos
sangramentos ou outras complicações da cirrose (em especial a
peritonite bacteriana espontânea e a
encefalopatia hepática). Além do
calibre das varizes, a presença de estigmas endoscópicos chamados de "sinais
da cor vermelha" indicam que as paredes dos vasos estejam mais finas,
facilitando o sangramento. É consenso que a presença desses estigmas
signifique varizes de alto risco de sangramento, embora isso seja questionável
quando ocorrem em varizes de fino calibre.

Variz esofágica com sangramento ativo (seta)
Além das varizes esofágicas, também podem ocorrer varizes no estômago. As
varizes gástricas também representam risco de sangramento (ao redor de 5% no
primeiro ano do diagnóstico, com esse risco aumentando progressivamente com o
tempo). Apesar da menor probabilidade de sangramento, as varizes gástricas são
um problema mais complexo que as esofágicas, pois não respondem tão bem ao
tratamento farmacológico e as ligaduras elásticas
e, quando rompem, é mais difícil controlar o sangramento.
Com a alta mortalidade decorrente do sangramento, todo portador de cirrose deve
estar alerta quanto a sinais de hemorragia (tabela abaixo). Se observar algum
desses sinais, deve permanecer e jejum e procurar um serviço de emergência
médica o mais rápido possível.
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Sintomas sugestivos de
sangramento |
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Fezes enegrecidas e fétidas |
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Palidez e mal estar |
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Vômitos com sangue |
DIAGNÓSTICO
Apesar da existência de outros exames para avaliar a fibrose do fígado (biópsia
hepática, exames laboratoriais e fibroscan) e a
presença de sinais de hipertensão portal (exames
de imagem, medida do gradiente de pressão portal), a endoscopia digestiva
alta continua sendo o padrão ouro (melhor exame) para o diagnóstico das varizes
e ainda permite avaliar o calibre dos vasos e a presença de sinais da cor
vermelha, que predizem maior risco de sangramento.

Varizes com sinais da cor vermelha (cherry red spots).
Fonte
A
Sociedade Brasileira de Hepatologia e a Sociedade Brasileira de Endoscopia
Digestiva consideram adequada e suficiente a classificação endoscópica das varizes esofágicas
em pequenas (diâmetro < 3mm), médias (3 a 5mm) e grandes (> 5mm), com ou sem os
sinais da cor vermelha. Pessoalmente, considero a classificação da Sociedade
Japonesa de Pesquisa em Hipertensão Portal, associada à classificação de Sarin
para varizes gástricas, como mais completa para a descrição das varizes.
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Classificação da Sociedade Japonesa de
Pesquisa em Hipertensão Portal
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Característica
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Código
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Descrição
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Cor fundamental
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CW
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Varizes brancas (white) ou com a mesma cor da mucosa
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CB
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Varizes azuladas (blue), acinzentadas ou arroxeadas
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Sinal da cor vermelha*
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RWM
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Mucosa em vergão vermelho (red wale marking - RWM)vênulas dilatadas, orientadas
com aspecto de marcas de açoite |
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CRS
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Manchas em cor de cereja (cherry red spot):
manchas avermelhadas,
arredondadas com cerca de 2 mm |
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HCS
|
Mancha hematocística (hematocystic spot):
pequenas projeções
arredondadas de cor vermelha ou arroxeadas com cerca de 4 mm de
diâmetro e semelhantes a uma bolha de sangue, geralmente solitária em
cordão tortuoso e de grosso calibre |
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DR
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Rubor difuso (diffuse redness):
áreas avermelhadas difusas,
sem elevações ou depressões |
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Forma
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F1
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Varizes retas
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F2
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Varizes tortuosas, de calibre pouco aumentado (menor que 1/3 da luz)
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F3*
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Varizes tortuosas, de grosso calibre (maior que 1/3 da luz)
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Localização
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Ls
|
Locus superior: acima da bifurcação traqueal
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Lm
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Locus medial: na área da bifurcação traqueal
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Li
|
Locus inferior: no terço distal de esôfago
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Esofagite
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E+
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Presente
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E-
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Ausente
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Locus gástrico
|
Lg-
|
Ausente
|
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Lgc
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Varizes em cárdia
|
|
Lgf
|
Varizes em fundo gástrico
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Exemplo: Varizes esofágicas azuladas, com
sinal da cor vermelha presente (cherry red spot e red wale marking) e em grande número, de
grosso calibre, a partir de terço proximal, sem esofagite e com varizes gástricas em cárdia:
Cb Rc+(CRS+++ RWM+++) F3 Ls E- Lgc+; * considerados sinais de varizes de alto
risco de sangramento.
   
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Classificação
endoscópica das varizes gástricas |
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Localização |
Código |
Descrição |
|
Varizes
gastroesofágicas |
GOV1 |
continuação
de varizes esofágicas e se extendem por 2 a 5 cm abaixo da transição
gastroesofágica pela pequena curvatura do estômago |
|
GOV2 |
extendem-se
para o fundo gástrico |
|
Varizes
gástricas isoladas |
IGV1 |
varizes gástricas
isoladas localizadas no fundo gástrico a poucos centímetros da cárdia |
|
IGV2 |
varizes gástricas
isoladas que ocorrem em qualquer local do estômago |
|
Sarin
SK, Kumar A. Gastric varices: profile, classification and management. Am J
Gastroenterol 1989;84:1244-9 |
OPÇÕES DE TRATAMENTO
Tratamento farmacológico
Há duas modalidades básicas de tratamento farmacológico para as varizes de
esôfago. Os beta-bloqueadores não seletivos (propranolol e nadolol, sendo que o
primeiro é o rotineiramente utilizado no Brasil) reduzem a freqüência cardíaca e
conseqüentemente a pressão no sistema porta, diminuindo a pressão sanguínea no
interior das varizes e o risco de sangramento. Seu uso é apenas preventivo
(profilático) para o sangramento, pois durante um episódio de hemorragia o
coração precisa aumentar a sua freqüência para contrabalançar a perda de sangue
e manter o fluxo do mesmo para os tecidos. A administração de beta bloqueadores
durante o sangramento de varizes esofagogástricas, portanto, aumenta o risco de
choque hemorrágico grave. Como a medida do gradiente de pressão portal
(parâmetro de medida da pressão no interior das varizes) envolve técnicas pouco
práticas (sendo melhor aplicadas apenas a protocolos de pesquisa), considera-se
que a dose efetiva dos beta bloqueadores é a suficiente para reduzir a
freqüência cardíaca em 25%. Os principais efeitos colaterais do tratamento são
queda de pressão arterial, fraqueza, sonolência e descompensação do diabetes.
Eles são parcialmente contra-indicados em pacientes com broncoespasmo (asma e
bronquite) pelo risco de piora do quadro pulmonar.
A outra classe farmacológica utilizada é a dos vasodilatadores esplâncnicos (terlipressina,
vasopressina, somatostatina e octreotide). Eles dilatam as veias pertencentes ao
sistema esplâncnico, reduzindo drasticamente a pressão no interior das varizes
e, na maioria dos casos, levando à interrupção do sangramento. Pelo perfil de
efeitos colaterais (que incluem risco de infarto agudo do miocárdio) e
necessidade de administração por via endovenosa, são adequados apenas para o
tratamento da hemorragia.
Tratamento endoscópico
Enquanto o tratamento farmacológico tem como objetivo reduzir a pressão no
interior das varizes para interromper ou diminuir o risco de sangramento, os
tratamentos endoscópicos visam eliminar as varizes no esôfago e/ou no estômago.
Como a causa dos surgimento das varizes, a hipertensão portal, não é alterada
pelo tratamento endoscópico, há o risco de surgimento de novas varizes.
A
escleroterapia
é o tratamento endoscópico onde injeta-se um agente
esclerosante (irritante) ou uma cola biológica (cianoacrilato) no interior da variz.
através de uma agulha. No caso do agente esclerosante, há um risco pequeno, mas
significativo, de sangramento (afinal, a variz é perfurada) e outras
complicações. Como esses riscos são maiores do que os da ligadura elástica, a
escleroterapia com agentes esclerosantes atualmente só é recomendada em casos de
emergência, quando não há disponibilidade da
ligadura elástica. A escleroterapia com cianoacrilato, no entanto, é
especialmente útil no tratamento das varizes de fundo gástrico, onde apresenta
melhores resultados do que a ligadura elástica, ou em casos de cirrose avançada
(Child-Pugh C), onde há um distúrbio mais severo da coagulação e o risco de
ressangramento das varizes é maior. A escleroterapia com cianoacrilato, no
entanto, é pouco disponível e apresenta entre as suas potenciais complicações a
migração da cola para os vasos pulmonares, onde pode levar a disfunção
respiratória aguda e severa, embora mesmo quando ocorra a migração ela seja
clinicamente de pouca importância.
   
Escleroterapia de varizes esofágicas. O objeto branco à
esquerda é o cateter com agulha, que está no interior da variz (Gastrocentro
- Unicamp)
A
ligadura elástica é um tratamento
onde aspira-se e coloca-se um anel elástico ao redor da variz,
provocando a coagulação de sangue no seu interior e o desaparecimento
progressivo da variz ao longo de 2-5 sessões. Após poucos dias, forma-se uma
úlcera e cai o anel, tornando essa fase de pequeno risco de hemorragia. Mesmo
assim, a ligadura elástica é equivalente à escleroterapia em eficácia
e superior em segurança.
    
Ligadura elástica de varizes (Gastrocentro - Unicamp)
  
Esquerda: varizes após ligadura - Direita: úlceras após
ligadura
Tratamento
radiológico/hemodinâmico
O TIPS (derivação
intra-hepática portossistêmica transjugular) é um procedimento radiológico no
qual é realizado um "desvio" entre a veia porta e a veia cava inferior, através
da colocação de uma prótese (stent) que é instalado no local por um
cateter que foi introduzido pela veia jugular, no pescoço, até a veia cava. Com
essa derivação, há redução na hipertensão portal, levando a redução na
ascite, diminuição do risco de hemorragia por varizes
esôfago-gástricas e melhora nas síndromes hepatorrenal e
hepatopulmonar. Há o risco de
desencadeamento de encefalopatia hepática
ou piora da mesma se o paciente já a apresentava, mas que geralmente pode ser
controlada se for leve. Os principais papéis do TIPS são servir como "ponte" até
a realização de transplante hepático, uma vez que há o risco de obstrução da
prótese com o passar do tempo, ou como opção de tratamento da hemorragia por
varizes onde não foi possível o controle com os tratamentos farmacológicos e
endoscópicos. Entre as contra-indicações para o TIPS estão a presença de
encefalopatia hepática antes do procedimento, fígado policístico, abscesso
hepático, doença hepática severa, insuficiência cardíaca, hipertensão pulmonar
severa e sepse.

TIPS
Tratamento cirúrgico
O tratamento cirúrgico tem como
objetivo reduzir a hipertensão portal desviando sangue da veia porta para outra
veia onde o sangue pode fluir com menor resistência, como a veia cava ou a
azigos. O risco de complicações, incluindo deiscência ("abertura dos pontos"),
infecções, hemorragias e, principalmente, de encefalopatia hepática são
significativos, especialmente no portador de cirrose avançada. Mesmo assim,
permanece uma opção quando há sangramento não controlado por medidas
farmacológicas ou endoscópicas e quando o TIPS não estiver disponível, for
contra-indicado ou se mostrou ineficaz.

Oclusão mecânica
Quando ocorre uma hemorragia por
varizes esofágicas fora dos grandes centros, freqüentemente não há a opção de
tratamento farmacológico com vasodilatadores esplâncnicos, endoscopia de
urgência e muito menos a disponibilidade de TIPS ou cirurgia de grande porte.
Uma medida de emergência é a colocação de um balão no esôfago, chamado de
Sengstaken-Blakemore, com o objetivo de manter a pressão do balão sobre a variz
acima da pressão da mesma, interrompendo o sangramento. É um procedimento
extremamente desconfortável, mas pode ser utilizado por um curto período (menor
que 24 horas) até que o paciente seja transferido para um centro com opções de
tratamento. O uso prolongado (e ocasionalmente até o uso por curtos períodos)
pode levar a aspiração seguida de pneumonia, úlceras esofágicas e de asa de
nariz e outras complicações.

ESTRAGÉGIAS
DE TRATAMENTO
Com
base nos conhecimentos sobre a
fisiopatologia da cirrose e da hipertensão portal e nas opções atualmente
disponíveis de tratamento, a Sociedade Brasileira de Hepatologia se reuniu em
2009 em Salvador para elaborar um
Consenso sobre o tratamento da hemorragia varicosa na hipertensão portal. As
recomendações foram as seguintes, de acordo com a situação:
-
rastreamento: em pacientes sem diagnóstico
prévio de varizes
-
profilaxia pré-primária: é a prevenção do
surgimento das varizes
-
profilaxia primária: é a prevenção do
primeiro sangramento
-
tratamento dos episódios de hemorragia
-
profilaxia secundária: é a prevenção de
novos episódios de sangramento
-
situações especiais
Recomendações para o rastreamento de varizes em portadores de hipertensão portal
-
o
rastreamento, por endoscopia digestiva alta, deve ser feito em todos os
pacientes com cirrose recém diagnosticada, independente do estágio
-
as
varizes devem ser classificadas como finas (<3mm), médias (3-5mm) e grandes
(>5mm), com avaliação de sinais da cor vermelha
-
pacientes com cirrose Child-Pugh A sem varizes devem realizar rastreamento
pelo menos a cada 2 anos
-
pacientes com cirrose Child-Pugh B sem varizes devem realizar rastreamento
pelo menos a cada ano
-
pacientes com varizes finas sem qualquer tratamento profilático devem ser
submetidos a endoscopia para reavaliação das varizes a cada ano,
independente do estágio da cirrose
Recomendações para a
profilaxia pré-primária:
Recomendações para a profilaxia
primária:
-
pacientes com cirrose avançada (Child-Pugh B ou
C) e varizes finas devem ser submetidos a profilaxia primária
-
pacientes com cirrose Child-Pugh A e varizes
finas podem se beneficiar da profilaxia primária, mas não há evidências
suficientes para a sua recomendação
-
pacientes com varizes médias ou grandes devem
ser submetidos a profilaxia primária independente do estágio da cirrose ou
da presença ou não de sinais da cor vermelha
-
tanto os betabloqueadores não seletivos quanto a
ligadura elástica de varizes podem ser indicados para a profilaxia primária
em pacientes com cirrose e varizes médias ou grandes com alto risco de
sangramento (cirroses Child-Pugh B ou C ou sinais da cor vermelha)
-
os betabloqueadores não seletivos são a opção
preferencial em pacientes com cirrose e varizes médias ou grandes sem alto
risco de sangramento (Child-Pugh A e ausência de sinais da cor vermelha); a
ligadura elástica deve ser oferecida a esses pacientes quando não houver
aderência ou se houver intolerância, efeitos colaterais ou contra-indicações
aos betabloqueadores
-
os betabloqueadores não seletivos devem ser
empregados em pacientes com cirrose e varizes finas com alto risco de
sangramento (Child-Pugh B ou C ou sinais da cor vermelha)
-
os betabloqueadores não seletivos podem ser
considerados em pacientes com cirrose e varizes finas com baixo risco de
sangramento (Child-Pugh A ou ausência de sinais da cor vermelha), mas em
casos selecionados pela falta de evidência disponível para a sua
recomendação
Recomendações para os
episódios de hemorragia
-
cirróticos com sangramento de varizes devem ser tratados, idealmente, em
unidade de terapia intensiva
-
a
estabilização hemodinâmica com infusão de líquidos deve ser feita com
cuidado, com o objetivo de manter o nível de pressão arterial sistólica
entre 90 e 100 mmHg com freqüência cardíaca de 100 bpm; pressões maiores
estão associadas a piora no sangramento
-
a
proteção das vias aéreas é recomendável em pacientes com depressão no nível
de consciência, hematêmese (vômito com sangue) maciça e naqueles com balão
de Sengstaken-Blakemore
-
o
uso de balão de Sengstaken-Blakemore deve ser reservado para aqueles
pacientes com hemorragia maciça com comprometimento hemodinâmico à admissão
e sem resposta a fluidos intravenosos, como "ponte" para tratamento
definitivo e por período não superior a 24 horas
-
transfusões de hemoderivados devem ser feitas quando necessárias com o
objetivo de manter o hematócrito e a hemoglobina entre 21%-27% e 7 g/dL-9
g/dL, mas níveis maiores podem ser necessários de acordo com idade,
comorbidades (doenças associadas, com insuficiência coronariana ou doença
pulmonar) e presença de sangramento ativo; não há dados que apóiem a
correção da coagulopatia em cirróticos com hemoderivados
-
drogas vasoativas (vasodilatadores esplâncnicos) devem ser iniciados assim
que possível em qualquer paciente com hemorragia digestiva alta e suspeita
de sangramento por varizes
-
terlipressina, somatostatina ou octreotide podem ser utilizadas de acordo
com o seu perfil de eficácia, tolerabilidade, custo e segurança; devido ao
seu impacto na sobrevida, a terlipressina pode ser considerada o agente de
escolha, mas não seria recomendável o seu uso em pacientes com doença
coronariana, vasculopatia periférica severa e hipertensão arterial não
controlada; não está mais recomendado o uso da vasopressina; esses fármacos
devem ser utilizados por 2 a 5 dias, o seu uso por 5 dias pode reduzir o
ressangramento
|
Drogas vasoativas na
hemorragia digestiva varicosa |
| Droga |
Dose recomendada |
| Terlipressina (Glypressin®) |
Bolus endovenoso de 2 mg seguido de
bolus intermitentes de 1-2 mg a cada 4 horas de acordo com a massa
corporal por 2-5 dias |
| Somatostatina (Stilamin®) |
Bolus endovenoso de 250 mcg, seguido
por infusão endovenosa contínua de 250 mcg/kg/hora por 2-5 dias |
| Octreotide (Sandostatin®) |
Bolus endovenoso de 50-100 mg,
seguido por infusão endovenosa contínua de 25-50 mcg/hora por 2-5
dias |
-
a
endoscopia digestiva alta deve ser realizada preferencialmente em até 12
horas após o início do sangramento de varizes
-
a
proteção das vias aéreas está recomendada em pacientes com sangramento
maciço, encefalopatia hepática graus III e IV e insuficiência respiratória
-
a
ligadura elástica de varizes é o procedimento endoscópico de escolha na
hemorragia varicosa, mas a escleroterapia é uma opção se a igadura não
estiver disponível ou não for possível por problemas técnicos
-
o
tratamento combinado com drogas vasoativas e terapia endoscópica é superior
a cada uma das modalidades sozinha e deve ser utilizada sempre que possível
em pacientes com hemorragia varicosa
-
infecções, principalmente do trato urinário e respiratório e
peritonite bacteriana espontânea devem ser
investigados em todos os pacientes com hemorragia varicosa, com
hemoculturas, análise e cultura do líquido ascítico, análise do sedimento
urinário e radiografia; se não houver infecção, mesmo assim está indicada a
antibiótico profilaxia para redução no risco de infecções, ressangramento e
mortalidade, sendo recomendado o norfloxacino 400 mg duas vezes ao dia ou
ceftriaxone 1 g por dia por 7 dias, sendo o último preferido para pacientes
mais graves; a possibilidade de síndrome hepatorrenal deve ser avaliada e
tratada com albumina e terlipressina se necessário
-
nos
casos em que o tratamento inicial não foi suficiente para controlar o
sangramento, opções incluem uma segunda tentativa de tratamento endoscópico,
dobrar a dose de terlipressina ou somatostatina, balão de
Sengstaken-Blakemore, cirurgia ou TIPS
Recomendações para a profilaxia
secundária:
-
todos devem ser tratados com beta-bloqueadores
não seletivos associados a ligadura elástica
-
os betabloqueadores devem ser utilizados na
maior dose tolerada e seu uso não deve ser interrompido abruptamente pelo
risco disso precipitar um novo episódio de sangramento
-
quando há ressangramento mesmo em uso de terapia
combinada, deve-se considerar a possibilidade de TIPS, ou de cirurgia se o
TIPS não estiver disponível
Situações especiais
-
gastropatia hipertensiva
portal (GHP): a recomendação para o sangramento oculto crônico é apenas
a suplementação com ferro; pode haver algum benefício com o tratamento
endoscópico com plasma de argônio em casos selecionados; em casos com
sangramento agudo, podem ser utilizadas drogas vasoativas (terlipressina,
somatostatina ou octreotide, embora a evidência da sua eficácia seja
insuficiente; está indicado o uso de beta-bloqueadores não seletivos como
profilaxia secundária; em casos de hemorragia recorrente ou severa, pode ser
realizado TIPS ou cirurgia

Gastropatia
hipertensiva portal com aspecto característico de petéquias em antro
gástrico.
-
ectasia vascular antral gástrica (GAVE): a única opção recomendável anda é o
tratamento endoscópico, especialmente com plasma de argônio; não há
benefício com o uso de beta-bloqueadores, drogas vasoativas, TIPS ou
cirurgia
-
varizes gástricas: apesar da falta de dados, os beta-bloqueadores não
seletivos são uma opção aceitável para a profilaxia primária; em pacientes
com alto risco de sangramento e condições técnicas favoráveis, a obliteração
transvenosa retrógrada com balão ocluído (BRTO) é uma opção pouco
disponível; varizes GOV1 devem ser tratadas como varizes esofágicas; o
sangramento por varizes GOV2 e IGV deve ser tratado preferencialmente com
escleroterapia com cianoacrilato e com beta-bloqueadores assim que possível
para profilaxia secundária; TIPS é uma opção em sangramento de varizes
gástricas refratário ao tratamento endoscópico

Variz gástrica com sangramento ativo (fonte)
-
pacientes não cirróticos com trombose de veia porta e portadores de
esquistossomose hepatoesplênica com hipertensão portal: devem ser tratados
de modo semelhante aos pacientes cirróticos, embora não existam dados
suficientes para estabelecer recomendações; o papel dos beta-bloqueadores
não seletivos é mais questionável, mas podem ser utilizados; não há dados
que mostrem a eficácia da cirurgia como superior à da ligadura elástica e
beta-bloqueadores na profilaxia secundária para o paciente esquistossomótico;
se for indicada cirurgia, a desconexão ázigo portal é a técnica de escolha
para o paciente esquistossomótico.
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Artigo criado em: 29/08/2005
Última atualização: 05/06/2011
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