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Tumores Benignos
do Fígado |
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Dr. Stéfano Gonçalves Jorge
Os tumores
benignos do fígado, apesar de benignos, podem estar associados a
complicações, incluindo raramente morte, se diagnosticados ou tratados
de modo errado. A maioria, no entanto, tem complicações tão raras que
o risco de tratamento é maior que o do tumor. Nesses casos, o
acompanhamento por profissional sem conhecimento técnico suficiente
pode levar a exames e tratamentos desnecessários ou prejudiciais.
De modo geral, os
tumores benignos do fígado podem ser divididos de acordo com o seu
tecido de origem.
Hiperplasia
Nodular Focal
Introdução
A hiperplasia
nodular focal (HNF) é o tumor hepático benigno mais comum depois dos hemangiomas. Com e exceção deste último, a HNF corresponde de 66 a
86% dos tumores benignos. A HNF não é uma lesão que se transforma
em câncer, geralmente é encontrada em exames de rotina e, na grande
maioria dos casos, não deve ser realizado nenhum tratamento.
Etiologia
A causa da HNF
ainda não está bem esclarecida, mas provavelmente surge de uma
malformação vascular que leva a um aumento local do fluxo sanguíneo.
Com esse aumento da oferta de sangue, há multiplicação das células
do fígado (hiperplasia) e provavelmente transformação dessas
células nas células do tumor. Apesar de ser muito mais comum em
mulheres (8 a 9,1 mulheres para 1 homem) em idade fértil (20 a 50
anos), não há evidência conclusiva sobre ação hormonal natural ou
anticoncepcionais.
Pode haver
múltiplas HNF no mesmo indivíduo, que pode apresentar ainda outras
lesões, incluindo anormalidades vasculares (hemangioma
hepático,
telangiectasia cerebral, aneurismas, artérias sistêmicas displásicas,
atresia de veia porta), tumores do sistema nervoso central (meningioma,
astrocitoma) e hemi-hipertrofia.
Sinais
e Sintomas
A vasta maioria desses tumores benignos é
encontrada ao acaso. Sintomas são incomuns, mas pode ser notada uma
tumoração no fígado. Pode surgir dor se houver rutura ou hemorragia
no interior do nódulo (a hemorragia é mais comum em mulheres usando
contraceptivos orais). Exames laboratoriais são quase sempre normais.

Anatomia
Patológica
Normalmente, a HNF ocorre como uma lesão
capsular menor que 5 cm. Geralmente há uma cicatriz fibrosa no centro
da lesão com grandes vasos arteriais espessados (hiperplasia
fibromuscular) e cicatrizes menores (septos) se estendendo
radialmente do centro até a cápsula, acompanhados de ductos biliares.
A presença de células de Kupffer, a principal das células de defesa
imunológica no fígado, ajuda a diferenciar a HNF de adenoma
hepatocelular.

Diagnóstico
Seguindo as características histológicas (do tecido) do tumor, a HNF
é facilmente identificável por exames de imagem. Ela se apresenta como
um nódulo com cicatriz central, que é mais facilmente identificada na
tomografia computadorizada. Na ressonância nuclear magnética, a
cicatriz será hiperdensa em T2 com contraste com gadolínio, podendo
diagnosticar a HNF com 98% de certeza (devendo-se no entanto considerar
a hipótese de hepatocarcinoma fibrolamelar na presença de lesão maior
de 10 cm em fígado com cirrose). A angiografia pode mostrar a
lesão hipervascular com uma cicatriz pouco vascularizada e vasos de
distribuição radial como uma roda de carroça. Geralmente não é
necessária a realização de biópsia, a não ser em casos de rutura
com indicação cirúrgica ou quando a lesão é encontrada ao acaso
numa cirurgia, aonde fazer uma biópsia é muito simples.

Prognóstico
A HNF raramente evolui com rutura ou hemorragia, que são as únicas
complicações do tumor. Nesses casos, ou em tumores excepcionalmente
raros (> 8 cm), pode ser necessária cirurgia para a retirada do
tumor. Outra opção de tratamento, com resultados variados, é a
embolização da artéria que nutre o tumor, atrvés de arteriografia. Apesar da relação discutível entre contraceptivos orais e a
HNF, não é recomendado o uso desses e a segurança na gravidez também
é duvidosa.
Adenoma
Hepatocelular
Introdução
O adenoma hepatocelular é um tumor de origem epitelial que era muito
raro antes da disseminação do uso de contraceptivos orais. Agora,
estima-se que apareça em 34 de cada 100.000 usuárias de
contraceptivos, sendo que o risco é maior em mulheres acima de 30 anos
de idade e que usaram estrógenos de alta dose por mais de 5 anos.
Etiologia
É evidente a correlação entre contraceptivos orais e o adenoma
hepático. Por essa epidemiologia, já observa-se uma dramática queda
na incidência de adenomas com a redução da dose de estrógenos nos
contraceptivos na última década. Outro fato interessante é a
incidência de adenomas em homens que usam esteróides androgênicos que
são transformados em estrógenos durante a metabolização.

Este tumor
também pode estar relacionado a outras doenças, como a doença de
acúmulo de glicogênio tipo I (Von Gierke), tirosinemia
e galactosemia. Nesses casos, a doença é mais predominante em
homens e tem alto risco de transformação em câncer. Outra condição,
a adenomatose hepatocelular múltipla, onde há geralmente mais
de 4 nódulos, é distinta da adenomatose isolada e não será discutida
aqui.
Sinais
e Sintomas
Geralmente, não há sintomas e o diagnóstico é
feito ao acaso durante exames de rotina ou para investigar outro
problema independente. Também pode ser feito pela presença de tumor
palpável no fígado, dor por hemorragia intratumoral ou por crise
dolorosa pela rutura do tumor, que pode levar a hemorragia maciça.
Diagnóstico
O exame físico geralmente é normal, com a exceção de tumores
palpáveis e nos casos de rutura, com achados típicos de hemoperitônio.
Exames laboratoriais costumam ser normais, mas podem apresentar
elevações pequenas de transaminases e enzimas canaliculares. O
ultra-som e a tomografia diagnosticam a lesão sem dificuldades, apesar
da comprovação não ser tão fácil. Como há redução na quantidade
das células de Kupffer, a cintilografia com enxofre coloide radioativo
mostra área com pouca captação do colóide. A lesão tem aumento de
vasos, que pode ser observado na ressonância e na angiografia, que
mostra vasos com fluxo centrífugo. Para complicar mais, pode haver uma
cicatriz central avascular como na hiperplasia
nodular focal e alguns adenomas podem ser hipovasculares.

Adenomas costumam
ser únicos e geralmente grandes (> 10 cm). Na biópsia
hepática, pode ser difícil diferenciar o adenoma do fígado normal
e do hepatocarcinoma bem
diferenciado. Além da diferença sutil entre a aparência dos
hepatócitos normais e a dos tumorais e a ausência das células de
Kupffer, um achado característico é a presença de arteríolas
intralobulares "flutuando" sem a tríade usual de arteríola,
ducto biliar e trato portal. Outros achados possíveis são a presença
de células gigantes, colestase, hialinos "alcoólicos" e
inclusões de alfa-1-antitripsina.

Evolução
Clínica
Até um terço dos indivíduos podem se apresentar
com hemoperitôneo pela rutura do tumor, necessitando de cirurgia de
urgência. Apesar da ocasional transformação para hepatocarcinoma, o
maior risco é mesmo a rutura.
Tratamento
O tratamento é cirúrgico sempre que possível, pelo elevado risco de
hemorragia e um menor risco de transformação em câncer. O tratamento
pode ser feito por cirurgia aberta ou laparoscópica, dependendo da
experiência do cirurgião. É possível o tratamento percutâneo do
tumor, com resultados aparentemente bons com a ablação por
radiofrequência. Como há a possibilidade de regressão espontânea de
lesões pequenas com a interrupção do uso de contraceptivos, essa pode
ser uma opção em casos limitados. Quando não for realizada cirurgia,
os pacientes devem ser seguidos de perto para o caso de transformação
maligna ou crescimento do tumor. Recomenda-se portanto a suspensão dos
contraceptivos e evitar gravidez, que é no entanto segura em mulheres
já operadas sem sinais de recidiva do tumor.
Prognóstico
Com a interrupção do uso de contraceptivos orais e extração do
tumor, o prognóstico é excelente.
Hiperplasia
Nodular Regenerativa
Introdução
Essa é uma condição incomum, caracterizada por nódulos de
hepatócios hiperplásticos rodeados por hepatócitos
"normais" comprimidos pelo crescimento do tumor com a
aparência superficial de cirrose, mas sem fibrose. Esses hepatócitos
são distribuídos em placas com mais de uma célula de espessura e são
melhor demonstrados com a coloração para reticulina.
Patogênese
A causa dessa lesão não está clara. Pode ser causada por obstrução
de múltiplos ramos intra-hepáticos da veia porta, levando a isquemia
local e atrofia, com subseqüente regeneração dos hepatócitos ao
redor, levando a compressão dos lóbulos adjacentes. Também pode ser
causada por inflamação portal e/ou arterial. Geralmente não é
descoberta a causa, mas já foi associada a artrite reumatóide,
síndrome de Felty, endocardite bacteriana subaguda, síndrome CREST, uso
prolongado de corticosteróides e contraceptivos orais, mieloma,
policitemia vera, mielofibrose, telangiectasia hemorrágica
hereditária, poliarterite nodosa e diabetes mellitus.
Sinais
e Sintomas
Raramente a HNR é mais que um achado de exame.
No entanto, em alguns casos, pode levar a hipertensão
portal e suas conseqüências. Outros sinais, sintomas e
alterações laboratoriais podem surgir devido às doenças associadas
à HNR descritas acima. Exames de imagem podem demonstrar nódulos mal
definidos sem características que os diferencie de outros tumores,
sendo necessária a realização de biópsia para confirmar o
diagnóstico.
Complicações
Se há hipertensão portal, pode surgir ascite,
encefalopatia e
sangramento de varizes esofágicas, mas isso não é comum. Geralmente o
tratamento é voltado para a doença de base. Pode haver progressão
para falência do fígado e, muito raramente, rutura do tumor. Como nos
outros nódulos benignos, recomenda-se evitar gravidez e contraceptivos
orais.
Adenoma
Hepatocelular Associado a Esteróides Anabolizantes (Peliosis Hepatis)
A peliose hepática é uma
doença hepática vascular induzida por drogas. É caracterizada por
cavidades preenchidas por sangue que estão distribuídas randomicamente pelo
lóbulo hepático. Na microscopia eletrônica, há constantes alterações
no alinhamento endotelial (Scoazec, GastrClinBiol, 1995; 19:505). Nas formas menos severas, as células endoteliais ainda estão
presentes, mas esparsas. O espaço entre as células endoteliais
permitem a entrada de eritrócitos no espaço de Disse. Nas formas mais
severas, o alinhamento endotelial é completamente ausente e as
cavidades sanguíneas são limitadas diretamente pelos hepatócitos.

A maioria dos casos são
assintomáticos e os exames hepáticos estão normais ou pouco
aumentados. Em alguns casos, no entanto, a doença evolui com icterícia,
hepatomegalia, hipertensão portal, hemoperitônio e insuficiência hepática.
A peliose a longo prazo pode levar tanto a fibrose peri-sinusoidal ou a hiperplasia
nodular regenerativa (Izumi, JHepatol, 1994; 20:129;
Scoazec, GastrClinBiol, 1995; 19:505). Os nódulos são geralmente
pequenos, mas podem chegar até a 11 cm e podem ser múltiplos.
As drogas mais freqüentes que
causam a peliose hepática são os esteróides androgênicos (anabolizantes), em especial os esteróides 17-alfa-alquilados,
principalmente se utilizados acima de 40-80 meses. Outras drogas incluem
azatioprina, 6-tioguanina, cloridro de vinil e derivados do arsênico.
Apesar de alguns casos descritos em mulheres utilizando contraceptivos
orais, isso é muito controverso se analisarmos a grande quantidade de
mulheres em uso deste tipo de medicação e os pouquíssimos casos
encontrados. Cerca de 75% dos casos ocorre em homens de todas as idades,
mas especialmente (como esperado) em adolescentes. Se não houver
complicações ao momento do diagnóstico, as lesões tendem a reverter
com a interrupção do uso dos esteróides.
Nódulos
Microrregenerativos
São nódulos de regeneração
que surgem após necrose hepática submaciça. Contém arquitetura
portal normal com hepatócitos hiperplásicos, mas sem características
neoplásicas.
Transformação
Nodular Parcial
É uma condição rara, que
pode estar relacionada a hiperplasia
nodular regenerativa. São nódulos de hepatócitos
hiperplásicos na região peri-hilar, associados a hipertensão portal.
Está associada a redução dos ramos portais, mas não está claro se
essa é uma causa ou conseqüência dos nódulos, pois não há sinais
de compressão. Pode haver ainda transformação cavernomatosa na veia
porta.
Cistos
Hepáticos
São lesões muito comuns,
encontradas em cerca de 0,17 % das necrópsias e exames de ultra-som.
Costumam ter uma parede fina, fracamente celular e fibrosa, com um
epitélio cubóide simples, contendo líquido claro. Ao ultra-som, é
anecóide e sem ecos em seu interior. Com esse achado característico,
não há nenhum diagnóstico diferencial. Outras lesões císticas do
fígado, como abscessos,
hematomas, metástases, etc são
ecograficamente muito distintas. Os cistos hepáticos simples são
assintomáticos, a não ser que sejam muito volumosos e/ou comprimam
outras estruturas, o que é muito incomum. Não há qualquer necessidade
de tratamento se não há complicações.

Cisto Hepático
Cistoadenoma
Biliar
É um tumor cístico benigno,
multilocular, com uma densa cápsula fibrosa. É relativamente raro e
mais comum em mulheres jovens, aonde o sintoma mais comum é de massa
palpável e/ou dor abdominal. Ao exame de imagem, além da cápsula
fibrosa evidente, as paredes internas são muito finas. Como o risco de
malignação é muito alto, de até 25%, há necessidade de ressecção
cirúrgica em todos os casos.
Bibliografia
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Vogl TJ; Own A;
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Artigo criado
em: 23/03/2005
Última atualização: 12/02/07
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