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Sarcoidose
Hepática
Dr.
Stéfano Gonçalves Jorge
Introdução
A Sarcoidose é
uma doença, de causa ainda desconhecida, aonde há formação de
granulomas não-caseosos em diversos órgãos. Os órgãos mais
acometidos são os linfonodos mediastinais e periféricos, pulmões,
fígado, olhos e pele e, menos frequentemente, baço, ossos,
articulações, músculos esqueléticos, coração e sistema nervoso
central.
Granulomas são
um dos mecanismos de defesa do organismo para defesa contra agentes
nocivos. Ele geralmente acontece quando o organismo não consegue
destruir o agente estranho por outros modos. Como ele não pode ser
destruído, células de defesa o englobam em várias camadas e o isolam
do restante do organismo. Depois de algum tempo, desenvolve-se fibrose (cicatriz) no local ou o depósito de cálcio nesse granuloma o torna um
nódulo calcificado.

Como na grande
maioria das doenças autoimunes, não sabemos o que desencadeia a
sarcoidose. Fatores genéticos estão envolvidos, alguns agentes de
"gatilho" são conhecidos, mas não sabemos o que faz o
organismo criar granulomas em diversos órgãos contra agentes que, até
aonde observamos, simplesmente não estão lá.
Sinais
e Sintomas
A sarcoidose pode
se apresentar em graus variados de gravidade, desde assintomática,
passando por febre, perda de peso, linfonodomegalia periférica e dores
articulares até sintomas mais severos, dependendo do órgão envolvido.
O acometimento dos órgãos pode ocorrer pela doença granulomatosa
ativa ou pela fibrose.
O
Fígado na Sarcoidose
O fígado está
envolvido na maioria dos pacientes (60-95%), aonde a doença se
caracteriza pela presença de granulomas epitelioides não-caseosos
geralmente nos tratos portais e algumas vezes no parênquima hepático.
Esses granulomas raramente prejudicam o funcionamento dos hepatócitos
ou do fluxo de sangue, que permanecem normais na grande maioria dos
pacientes com sarcoidose.
Em menos de 1%
dos portadores de sarcoidose, há colestase intra-hepática (acúmulo
de bile no fígado) crônica, levando a cirrose e
hipertensão portal.
A evolução da colestase na sarcoidose é praticamente idêntica à da cirrose
biliar primária, da qual deve ser diferenciada pela pesquisa de
anticorpos anti-mitocôndria, que está normal na sarcoidose.
Diagnóstico
da Doença no Fígado
O diagnóstico da
sarcoidose geralmente se faz através do quadro clínico, do aspecto
característico do raio-X de tórax (adenopatia hilar e paratraqueal
direita, com infiltração pulmonar de características diversas),
excluindo outras doenças granulomaosas (tuberculose, aspergilose,
criptococose, histoplasmose, blastomicose e doença de Hodgkin) em
conjunto com biópsias. Essas biópsias geralmente são colhidas de
órgãos periféricos acometidos (pele, linfonodos, conjuntiva), mas
também podem ser realizadas biópsias por broncoscopia, toracoscopia,
mediastinoscopia ou biópsia
hepática.

Exames
laboratoriais no acometimento do fígado geralmente mostram
hiperglobulinemia, aumento da fosfatase alcalina (até 25 vezes o
normal) e nas transaminases (até 5 vezes), mas o comprometimento da
função sintética do fígado é muito raro. A tomografia
computadorizada geralmente é normal, mas 10% dos pacientes podem
apresentar hepatomegalia (aumento do fígado) e a formação de
nódulos hipodensos, devendo-se excluir a possibilidade de tumores (benignos
e malignos) ou abscessos.
A biópsia demonstra a presença dos granulomas, algumas vezes com
achados característicos da cirrose biliar primária
e raramente com desaparecimento dos canais biliares.
É muito raro o
acometimento isolado do fígado, sem outros órgãos. Se isso acontece,
devem ser excluídas outras hepatites granulomatosas
(tabela
abaixo):
|
Agentes Bacterianos
|
brucelose
|
Drogas
|
alopurinol
|
|
|
borreliose
|
|
cefalexina
|
|
|
micobacteria
|
|
clorotiazida
|
|
|
salmonelose
|
|
clorpromazina
|
|
|
sífilis secundária
|
|
dapsona
|
|
|
doença de Whipple
|
|
diazepam
|
|
Agentes Fúngicos
|
actinomicose
|
|
diltiazem
|
|
|
aspergilose
|
|
isoniazida
|
|
|
blastomicose
|
|
metildopa
|
|
|
candidíase
|
|
nitrofurantoína
|
|
|
blastomicose
|
|
oxacilina
|
|
|
criptococose
|
|
fenilbutazona
|
|
|
histoplasmose
|
|
fenitoína
|
|
|
nocardiose
|
|
sulfasalazina
|
|
Agentes Virais
|
CMV
|
|
sulfnamidas
|
|
|
EBV
|
|
quinidina
|
|
|
HIV-1
|
Corpos Estranhos
|
berílio
|
|
Agentes Parasitários
|
amebíase
|
|
sílica
|
|
|
ascaridíase
|
|
talco
|
|
|
giardíase
|
|
dióxido de tório
|
|
|
toxoplasmose
|
Doenças Imunes
|
polimialgia reumática
|
|
Riquetsia
|
febre Q
|
|
cirrose biliar primária
|
|
Neoplasias
|
leucemia "hairy-cell"
|
|
artrite reumatóide
|
|
|
doença de Hodgkin
|
|
sarcoidose
|
|
|
melanoma
|
|
colite ulcerativa e Crohn
|
|
|
linfoma não-Hodgkin
|
|
granulomatose de Wegener
|
Curso
Clínico e Prognóstico
Como toda doença
autoimune, a evolução da sarcoidose é muito variável. Mesmo doenças
avançadas podem desaparecer sem qualquer tratamento. Geralmente
doenças que acometem apenas órgãos do tórax têm maior chance de
desaparecer (até 89,4% das vezes) e o aparecimento de eritema nodoso
(manifestação na pele) também indica maior chance de recuperação
completa.
Apesar de 10% dos
portadores de sarcoidose apresentarem danos sérios em diversos
órgãos, a mortalidade pela doença é inferior a 3%, principalmente
pela insuficiência cardíaca e respiratória secundária a fibrose
pulmonar.
Tratamento
Nenhum tratamento
até o momento mostrou ser eficaz na redução da fibrose pulmonar. Os
corticosteróides (dose inicial - prednisona 15 a 20 mg/dia ou
metilprednisolona 12 a 16 mg/dia) aceleram o desaparecimento dos
sintomas, mas não afetam a evolução da doença. Assim, o tratamento
medicamentoso da sarcoidose deve ser feito apenas em pacientes com
sintomas moderados/severos, não naqueles com sintomas muito leves ou
apenas com alterações laboratoriais, que não se beneficiarão do
tratamento e apenas sofrerão com seus efeitos colaterais. Outros agentes,
como metotrexate e hidroxicloroquina, são opções aos corticosteróides.
Corticosteróides
podem aliviar quadros de hepatite aguda pela sarcoidose, que são muito
raros, mas não mudam a evolução da doença, não eliminam os
granulomas e não impedem a evolução da cirrose. Pacientes com cirrose
e hipertensão portal devem ser submetidos a transplante hepático com a
evolução da doença.
Artigo criado em: 31/10/05
Última revisão: 31/10/05
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