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Metástases
Hepáticas
Dr. Miki Mochizuki
Introdução
O fígado é o principal órgão acometido por metástases hematogênicas
provenientes da circulação portal e um freqüente alvo de metástases advindas
da circulação sistêmica. O acometimento hepático por um tumor metastático
é muito mais comum do que por um tumor primário, chegando a ser vinte vezes
mais freqüente. Em necropsias, cerca de 40% dos pacientes com tumores
extra-hepáticos apresentavam metástase hepática quando obituaram (1). Esse
fato pode ser atribuído ao fato do fígado ser a maior víscera sólida do
organismo, recebendo grande fluxo sangüíneo arterial e venoso (todo sangue da
cavidade abdominal drena para a veia porta, passando obrigatoriamente pelo
fígado antes de atingir a veia cava). Os principais sítios primários dos
tumores metastáticos do fígado são cólon, pâncreas, mama, ovário, reto,
estômago, pulmões e rins, respectivamente. (Tabela 1)
Tabela 1: freqüência de tumores
metastáticos no fígado:
|
Tumor primário |
% de pacientes com
metástase hepática |
|
Vesícula biliar |
77,6% |
|
Pâncreas |
70,4% |
|
Primário desconhecido |
57,0% |
|
Cólon |
56,0% |
|
Mama |
53,2% |
|
Melanoma |
50,0% |
|
Ovário |
48,0% |
|
Estômago |
44,0% |
|
Broncogênico |
41,8% |
Patogênese
As metástases chegam ao fígado de quatro formas básicas:
-
Por
contiguidade: ocorre devido à
proximidade do tumor primário ao fígado, como no caso dos tumores de
estômago, cólon, ducto biliar e vesícula biliar;
-
Por
via linfática: a disseminação por via
linfática ocorre dos tumores de mama, pulmão e também dos órgãos
drenados pela veia porta;
-
Pela
artéria hepática: a dissemicação pela
artéria hepática, por via sistêmica, ocorre em casos como tumores
pulmonares e melanomas;
-
Pela
veia porta: as metástases chegam ao
fígado predominantemente através da veia porta, de forma que
metástases hepáticas podem ser encontradas em quase que a metade dos
casos em que há acometimento de um órgão drenado pela veia porta.
Embora a via preferencial de metastatização seja a veia porta, as metástases
hepáticas são supridas quase que exclusivamente através da artéria hepática
[14]. Nos carcinomas colorretais parece haver uma predileção pela
metastatização para o lado direito do fígado, embora não haja substratos que
expliquem totalmente essa tendência.[2]
Os passos biológicos relacionados ao surgimento de uma metástase envolvem
além perda do controle da proliferação celular a ocorrência de alterações
na regulação da motilidade celular, de fatores relacionados à adesividade
celular e de proteólise estromal.[13] Os sítios de instalação das
metástases pode estar relacionado à existência de estruturas celulares ou
endoteliais que permitam a adesão das células metastáticas. As moléculas de
adesividade celular têm estruturas semelhantes a anticorpos, tendo sido
identificada como no caso do DCC e CEA (relacionados ao câncer colo-retal).
Diagnóstico
O diagnóstico de metástases hepáticas deve considerar dados clínicos,
laboratoriais e de propedêutica armada, podendo ocorrer basicamente em dois
momentos principais: um antes e outro após o tratamento da lesão primária.
Quadro
clínico:
Em mais da metade dos casos avançados é descrita a ocorrência de alguma
sintomatologia que pode ser relacionada às metástases hepáticas.[12] A
clínica pode ser caracterizada por emagrecimento, fadiga, anorexia e queixas
inespecíficas. Dor abdominal, ascite e icterícia também podem estar presentes
em alguns casos e em cerca de 15% dos casos pode ocorrer febre sem causa
determinada. Em cerca de 60% dos casos é possível identificar hepatomegalia ou
tumor palpável ao exame físico. Pode ocorrer hipertensão portal em alguns
casos, podendo-se identificar circulação colateral.
Exames
laboratoriais:
Laboratorialmente os achados são pobres, podendo ser normais na maior parte das
vezes apesar de um acometimento hepático maciço. Em outros casos pode ocorrer
elevação dos níveis séricos de bilirrubina, da fosfatase alcalina (FALC) e
da gama glutamiltransferase (GGT), mas o mesmo raramente ocorre com as
transaminases. A elevação dos níveis de desidrogenase láctica (LDH)
isoladamente é particularmente comum nos casos de infiltração hepática por
tumores de origem hematogênica, como linfomas e leucemias.
Marcadores
tumorais:
Os marcadores tumorais podem ser hormônios, proteínas oncofetais, enzimas e
antígenos tumorais secretados entre outros. O estudo desses marcadores pode ser
importante na definição diagnóstica e no seguimento clínicos dos tumores,
podendo também ajudar na pesquisa da ocorrência de metástases. No câncer
colo-retal uma elevação nos níveis do antígeno carcinoembriônico (CEA) pode
ser encontrada em cerca de 80% dos casos em que há metástase hepática.
[8,9,10,11]
Métodos
de imagem:
A pesquisa de metástases deve ser realizada no estadiamento de todos os tumores
através de métodos de imagem como: o ultra-som, a tomografia computadorizada,
a arteriografia, a ressonância nuclear magnética, a tomografia computadorizada
com portografia, a radio-imunocintilografia com índio marcado com anticorpo
anti-CEA, tomografia com emissão de prótons com 2-[18F] fluoro-2-desoxi-D-glicose,entre
outras.
Cada um dos exames apresenta vantagens e desvantagens. A ultra-sonografia e a
tomografia computadorizada são os métodos mais comumente utilizados em nosso
meio devido à acessibilidade. Todos os métodos, entretanto têm a limitação
de só detectarem lesões de no mínimo 1 a 2 cm de diâmetro.
|
Método |
Sensibilidade(%) |
|
Ultra-som pré-operatório |
38,1 |
41,3 |
48 |
|
Tomografia computadorizada |
42,8 |
47,1 |
52 |
|
Exploração cirúrgica |
60,2 |
- |
- |
|
Ultra-som intra-operatório |
82,3 |
- |
- |
Machi J, Isomoto H,
Kurohiji T, et al. World J Surg 15:551-557, 1991 & van Ooijen B, Oudkerk M,
Wiggers T Surgery119:511-6, 1996
A ultra-sonografia intra-operatória tem sido amplamente utilizada nas
ressecções hepáticas, permitindo o diagnóstico de lesões não vistas
previamente ao procedimento cirúrgico ou não palpáveis durante o ato
cirúrgico, contribuindo no tratamento adequado das lesões hepáticas.[20]
Quando existe dúvida quanto à natureza da lesão exames com o emprego de
radiofármacos como a PET scan com FDG pode ser útil e na persistência da
dúvida pode-se realizar biópsia guiada por ultra-som ou tomografia para
aquisição de um substrato anatomo-patológico.
Tratamento
O diagnóstico da metástase hepática deve ser considerada em três momentos
principais. Em um primeiro momento, o diagnóstico de uma lesão hepática
metastática pode surgir antes da identificação do tumor primário. Em um
segundo momento, o diagnóstico pode ocorrer na fase de estadiamento de um tumor
ou mesmo no ato operatório para a resolução do tumor primário. Em um
terceiro e último momento, o diagnóstico pode ser estabelecido no seguimento
pós-operatório de um tumor primário.
A história natural de uma metástase hepática não tratada de uma origem
qualquer é de uma sobrevida de 4 a 24 meses, com uma mediana menor que um ano
de sobrevida. Uma vez realizada a ressecção de uma metástase hepática a
sobrevida pode alcançar de 25 a 30% em 5 anos. A condição principal para a
indicação de uma ressecção cirúrgica de uma metástase hepática é a
eliminação do tumor primário.
O achado de metástase hepática, mesmo quando aparentemente única, proveniente
de tumores de mama, pâncreas, estômago, órgãos pélvicos da mulher e
pulmões contra-indicam a ressecção do tumor primário por não interferir com
o prognóstico, diferente do que ocorre com os tumores colo-retais, onde a
presença de uma metástase hepática não contra-indica a ressecção da lesão
primária.
A ressecção cirúrgica da metástase hepática é o único tratamento
potencialmente curativo existente no momento. A utilização de quimioterapia
local ou sistêmica não conseguiram atingir cura ou aumento da sobrevida em
muitos trabalhos.[3,4,5,6,7]
A sobrevida varia com a extensão da doença podendo variar de 3 meses para
pacientes com lesões hepáticas extensas a 2 a 3 anos para pacientes com
lesões únicas pequenas, sendo um pouco maior nos pacientes com metástases de
cólon quando comparados a pacientes com metástases de tumores de pâncreas e
estômago. A sobrevida média em 5 anos está em torno de 28%. [15-19]
Antes de se decidir pela ressecção hepática é preciso se ter em mente
algumas considerações sobre a lesão:
-
Presença
de lesão extra-hepática: para que haja valor na ressecção da
lesão hepática é consenso que esta esteja restrita ao fígado. Apesar
de haver relatos ocasionais de sucesso, a ocorrência de acometimento
extra-hepático ou linfonodal constitui contra-indicação para a
ressecção da lesão hepática. O acometimento de estruturas contíguas
ao fígado, como o diafragma e a parede abdominal, entretanto não
constituem contra-indicação para a ressecção da metástase contanto
que seja factível;
-
Extensão
da lesão: a ocorrência de um número maior de metástases do que
3 a 5 parece interferir com um prognóstico. Metástases que acometem
>25% do volume hepático também parecem apresentar um prognóstico
pior;
-
Característica
da lesão primária: o grau de diferenciação histológica do
tumor primário, bem como a sua disseminação linfonodal estão
relacionados com o prognóstico após a ressecção da metástase
hepática. Quanto menor o grau de diferenciação e maior a disseminação
linfonodal, pior o prognóstico esperado;
-
Condições
clínicas do paciente: a ocorrência de cirrose hepática pode
contra-indicar a possibilidade de uma ressecção, bem como as condições
gerais do paciente relacionado não só ao fígado como a outros órgãos
e sistemas.
Na execução da cirurgia alguns cuidados devem ser tomados, como uma margem
mínima de 1 cm em relação à lesão. Ressecções com margens mais amplas
não parecem interferir com o prognóstico, de forma que a cirurgia programada
deve ser a máxima necessária e a mínima possível que permita a remoção
completa da lesão hepática. Deve-se evitar as transfusões sangüíneas dadas
as implicações negativas no resultado a longo prazo, relacionadas a fatores de
imunidade. Nos casos de recorrência da metástase hepática, alguns autores
sugerem que os riscos de uma re-hepatectomia são semelhantes ao da primeira
cirugia, de forma que pode ser realizada em casos selecionados.
[32,33,34,35,36,37]
Outros métodos terapêuticos disponíveis são:
-
Quimioterapia
sistêmica ou local: os quimioterápicos mais freqüentemente utilizados
são a FUDR (floxuridina, que é utilizada em associação ao ácido folínico)
e o 5-FU (5-fluoro-uracil), podendo ser empregados sistemicamente ou através de
infusão regional na veia porta. Em alguns casos é realizada a ligadura da
artéria hepática, sem que seja constatada, entretanto, melhora dos resultados;
-
Hipertermia:
terapias que envolvem o uso de radiofrequencia têm sido empregados nos tumores
hepáticos irressecáveis, mas não há provas de seu benefício a longo prazo
[27];
-
Crioterapia:
é a destruição in situ de um tecido através do ciclo de congelamento
e descongelamento. Temperaturas inferiores a –50º C são
necessárias para otimizar a destruição celular. Com o início do congelamento
há formação de gelo no espaço e exclusão dos eletrólitos. As células
subseqüentemente são expostas a um meio hiperosmótico, que resulta numa
desidratação celular, lesão da membrana celular e desnaturação protéica. O
descongelamento deve resultar em um meio hipotônico que deve causar a rotura
celular. Os resultados a longo prazo não são animadores. Alguns autores têm
apontado a crioterapia como uma boa opção para aqueles pacientes que têm
contra-indicação para o tratamento cirúrgico. [24, 25, 28] A melhor maneira
de avaliar a eficácia da crioterapia é através da normalização do CEA após
o tratamento [26];
-
Transplante
hepático: deve ser considerado como procedimento de exceção, podendo
ser indicado em casos selecionados de metástases de tumores neuroendócrinos,
com bons resultados, quando envolve tumores carcinoides [30];
-
Outras:
há alguns estudos experimentais como a utilização de vacinas autólogas para
o tratamento das metástases de carcinomas de cólon, mas os dados ainda estão
em fase experimental [31].
Prognóstico
A sobrevida varia com a extensão da doença podendo variar de 3 meses para
pacientes com lesões hepáticas extensas a 2 a 3 anos para pacientes com
lesões únicas pequenas, sendo um pouco maior nos pacientes com metástases de
cólon quando comparados a pacientes com metástases de tumores de pâncreas e
estômago.
|
Fatores prognósticos |
|
Ressecção R0 do tumor primário
com margens cirúrgicas adequadas |
|
Padrão de disseminação das
metástases (unilobar ou bilobar) |
|
Tamanho e número de metástases |
|
Estadiamento do tumor primário |
|
Presença de metástases
extra-hepáticas |
|
Acometimento de linfonodos
próximos aos ligamentos hepáticos |
|
Nível de CEA: Níveis de CEA
elevados parecem refletir tumores com maior agressividade e um pior
prognóstico, embora não se possa definir o exato valor deste dado
isoladamente [21-23] |
|
Idade avançada do paciente |
|
Transfusão sangüínea |
Os fatores relacionados à recorrência das metástases são a margem
cirúrgica, o número de metástases e o nível de CEA pré-operatório. [28] A
margem cirúrgica mínima deve ser de 1 cm, o que tem sido possível com o
emprego do ultra-som intra-operatório. Valores de CEA superiores a 200ng/mL
devem ser tomados como contra-indicação cirúrgica imediata, pois raramente
esses pacientes deixarão de ter recidiva e mesmo que a princípio a lesão
possa parecer ressecável, em pouco tempo surgem evidências de
irressecabilidade, de forma que esses pacientes devem ser reavaliados após 4 a
6 meses. Apenas nos casos em que a lesão parece restrita a uma área
ressecável do fígado a cirurgia deve ser indicada. [28]
Leia
mais sobre câncer de fígado
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Artigo criado em:
2001
Última revisão: 2001
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