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Hipertensão Portal
Dr.
Stéfano Gonçalves Jorge
HISTÓRIA
Os egípcios reconheceram uma associação entre hepatopatia
e ascite. Essa complicação da hipertensão portal foi freqüentemente
documentada na Idade Média. O primeiro sangramento por varizes, confirmado por necrópsia, foi descrito em 1840 por Power, que não chegou a reconhecer
hepatopatia. Em uma série de 60 necrópsias em 1900, Preble estabeleceu a
relação entre cirrose, varizes e sangramento gastrointestinal. O termo hipertensão
portal foi usado pela primeira vez por Gilbert e Villaret em 1906.
FISIOPATOLOGIA
A hipertensão portal é uma complicação séria da
cirrose,
contribuindo para algumas das complicações das hepatopatias crônicas.
A veia porta é derivada da veia esplênica e da veia
mesentérica superior e inferior. Portanto, recebe o sangue que drena da
circulação esplâncnica para o fígado. O fígado é o principal sítio de
resistência ao fluxo venoso portal e age como uma rede vascular distensível de
baixa resistência. A pressão venosa portal é normalmente baixa (5-10 mmHg), sendo a hipertensão portal definida como superior a
10 mmHg.

As mudanças na pressão do sistema portal são reguladas
pela Lei de Ohm, que estabelece que mudanças na pressão (P1-P2) em um
vaso dependem da interação entre fluxo sangüíneo (Q) e resistência vascular
(R).
(P1-P2) = Q x R
O aumento da resistência portal pode ocorrer em qualquer
lugar ao longo do sistema venoso, isto é, na veia porta ou em suas tributárias
antes que o sangue chegue ao fígado (obstrução pré-hepática), nos
espaços vasculares dentro do fígado (obstrução intra-hepática), ou
após (obstrução pós-hepática). A obstrução intra-hepática, por
sua vez, é muito mais complexa. Oclusão dos pequenos ramos portais dentro da
tríade portal (obstrução pré-sinusoidal pode complicar doenças
hepáticas nas quais há extensa infiltração ou fibrose inflamatória portal e
peri-portal. Alternativamente, o fluxo sangüíneo pode ser impedido por
estenose dos sinusóides pela deposição de colágeno ou oclusão dos mesmos
por elementos celulares contráteis (obstrução sinusoidal).
Finalmente, o fluxo venoso portal pode ser impedido ao nível das vênulas
hepáticas terminais, devido a oclusão induzida por toxinas (obstrução
pós-sinusoidal).
Os fatores fisiopatológicos da hipertensão portal foram
parcialmente elucidados na última década. Primeiro, a obstrução ao fluxo
sangüíneo portal aumenta a resistência vascular no leito vascular
esplâncnico. Esse aumento da resistência resulta na formação de colaterais
portossistêmicos. Segundo, a vasodilatação esplâncnica ocorre com um aumento
associado do influxo esplâncnico. Essas mudanças levam ao desenvolvimento de
uma circulação sistêmica hipercinética.
CLÍNICA
Quando há obstrução ao fluxo portal, o sangue começa a se
acumular em leitos vasculares que normalmente drenam para a veia porta. A congestão
omental contribui para a formação da ascite. O seqüestro sangüíneo
pelo baço causa esplenomegalia e hiperesplenismo, com trombocitopenia,
neutropenia e anemia. Eventualmente, um sistema circulatório colateral (por exemplo, varizes), se desenvolve para descomprimir o sistema portal. O
aumento do fluxo através de varizes esôfago-gástricas e hemorróidas pode
levar a rutura, com hemorragia devastadora.
Se houver o desenvolvimento extenso de varizes, uma
quantidade significativa de sangue portal é desviado do fígado, que cada vez
vai depender mais de nutrição pela artéria hepática. Esse deficit restringe
a capacidade regenerativa do fígado, que leva a atrofia. Também torna o
fígado mais susceptível a mudanças na pressão arterial. O sangue proveniente dos intestinos
passa para a circulação colateral sem o necessário clearance pelo fígado,
contribuindo para a encefalopatia hepática e sepsis.
HEMORRAGIA GASTROINTESTINAL
A hemorragia gastrointestinal é uma complicação séria da
hipertensão portal. Apesar de muitas causas potenciais de sangramento (úlceras pépticas, gastropatia
hipertensiva, varizes) coexistirem nos
pacientes cirróticos, as hemorragias mais abundantes provém do rompimento de
varizes.
Colaterais esofágicas, gástricas e hemorroidárias são os
que têm maior propensão ao sangramento profuso, apesar das varizes poderem
aparecer em outras localizações (cicatrizes cirúrgicas, ostomias, veia
umbelical). As varizes esôfago-gástricas são conexões entre as veias
coronárias e as gástricas curtas e a veia ázigos. As varizes
hemorroidárias ocorrem entre o sistema porta e as veias hemorroidárias
superior e média.

Varizes esofágicas vistas
na endoscopia
A história natural das varizes sugere que elas se
desenvolverão em aproximadamente 30% dos cirróticos compensados e em 60% dos
descompensados. Aparecerão em 8% dos cirróticos a cada ano. Varizes pequenas
evoluem para varizes grandes. O risco de sangramento por varizes volumosas é de
20 a 30% por ano. Os fatores de risco são o sinal da cor vermelha à
endoscopia, gradiente de pressão portal maior que 12 mmHg e insuficiência
hepatocítica. Após o primeiro episódio de sangramento, o risco de
recorrência é de 75 a 80%, principalmente nas primeiras 6 semanas.
TRATAMENTO
O tratamento
medicamentoso da hipertensão portal tem como principal objetivo reduzir a pressão
no sistema porta e, conseqüentemente, nas varizes (através de vasodilatação
do leito venoso esplâncnico), com redução do risco de ruptura (como medida
preventiva) ou redução e possível interrupção do sangramento ativo. No
primeiro caso, recomenda-se especialmente beta-bloqueadores não
cardio-seletivos (especialmente o propranolol ou o nadolol), podendo-se
também utilizar o mononitrato de isossorbida (mas com maior índice de efeitos
colaterais). No sangramento ativo, o objetivo é reduzir intensa e rapidamente a
pressão portal sem causar vasodilatação sistêmica, utilizando-se análogos
da somatostatina (octreotide ou terlipressina). O tratamento e a prevenção
da hemorragia varicosa, com outros métodos que não os que agem diretamente
sobre a hipertensão portal, estão descritos em artigo
próprio.

Variz esofágica com sangramento ativo (seta)
Outra opção de tratamento são os shunts
("curto-circuitos"). Trata-se de desviar o fluxo sanguíneo de uma das
maiores veias esplâncnicas para reduzir a hipertensão portal, melhorando a função
hepática e prevenindo complicações. Diferentes formas de shunt do sistema
porta para a circulação sistêmica ("shunt portossistêmico") foram
descritas no tratamento, a escolha dependendo da veia cava inferior pérvia e do gradiente de
pressão entre a veia porta e a veia cava, pois um gradiente mínimo de 10 mmHg
é necessário para manter o shunt pérvio a longo prazo.
No shunt portocava, a construção portocava látero-lateral
é o procedimento de escolha apenas se a pressão na VCI é substancialmente
menor que a portal. Tem a mais alta taxa de manutenção do shunt. No shunt
mesocava, o shunt em "H" é simples e evita ressecção hilar;
como a veia porta e a VCI supra-renal infra-hepática não são manipuladas,
permitem transplante hepático no futuro. No entanto, tem alta taxa de trombose
(24-53%). No shunt mesoatrial, o bypass do fígado
e da VCI é indicada em pacientes nos quais a VCI está total ou parcialmente
ocluída, especialmente se houver oclusão concomitnte de veias hepáticas.

O TIPS (derivação
intra-hepática portossistêmica transjugular) é um procedimento radiológico
no qual é realizado um "desvio" entre a veia porta e a veia cava
inferior, através da colocação de uma prótese (stent) que é instalado no
local por um cateter que foi introduzido pela veia jugular, no pescoço, até a
veia cava. Com essa derivação, há redução na hipertensão
portal, levando a redução na ascite, diminuição
do risco de hemorragia por varizes esôfago-gástricas
e melhora nas síndromes hepatorrenal e hepatopulmonar.
Há o risco de desencadeamento de encefalopatia
hepática ou piora da mesma se o paciente já a apresentava, mas que
geralmente pode ser controlada se for leve. O papel do TIPS geralmente é o de "ponte" até a realização de
transplante hepático nos casos graves (cirrose avançada, insuficiência hepática
fulminante), uma vez que há o risco de obstrução da prótese com o passar do
tempo (até 67% em 1 ano) e o procedimento não prejudicará a realização de
um transplante (ao contrário dos shunts cirúrgicos). O TIPS também é eficaz
no controle da hemorragia por varizes de esôfago de difícil controle com
medicamentos e/ou tratamento endoscópico.
O transplante hepático é indicado no lugar do
shunt se há sinais de insuficiência hepática, especialmente em casos de
insuficiência hepática fulminante, cirrose hepática
avançada e aqueles que
pioraram rapidamente após realização de shunt.

Artigo criado em:
2001
Última revisão: 01/02/07
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