A
hepatite
autoimune (HAI) é uma doença causada por um distúrbio do sistema
imunológico, que passa a reconhecer as células do fígado (principalmente
hepatócitos) como estranhas e desencadeia uma inflamação crônica e
destruição progressiva das mesmas. Cirrose biliar
primária, colangite esclerosante
primária, colangite autoimune e outras hepatopatias crônicas que têm bases
imunológicas, pelas suas manifestações colestáticas e pela resposta
insatisfatória à corticoterapia, são consideradas à parte. Mesmo a HAI
provavelmente é um conjunto de doenças diferentes, como pode-se observar pelas
manifestações, achados laboratoriais, evolução e resposta ao tratamento tão
distintos que o diagnóstico faz-se por meio de um sistema de score (pontuação) e há descrições de subtipos diferentes de hepatites autoimunes,
descritos abaixo.
Para melhor
compreender a HAI, é necessário entender alguns termos:
-
anticorpos são
substâncias produzidas pelo sistema imunológico para destruir vírus,
bactérias e outros agentes nocivos;
-
para produzir anticorpos, o
sistema imune precisa reconhecer esse agente nocivo como estranho ao
organismo;
-
praticamente todas as
substâncias têm moléculas em sua superfície que podem ser analisadas
pelas nossas células do nosso sistema imune;
-
ao encontrar um
antígeno,
nosso sistema têm a capacidade de diferenciar o que é nosso e normal do
que é estranho e deve ser eliminado (nesse caso, chamamos essas moléculas
que deflagram a imunidade de antígenos);
-
nas doenças autoimunes, nosso
sistema imunológico reconhece como antígenos (auto-antígenos)
componentes de alguma de nossas células normais (no caso da HAI,
componentes dos hepatócitos);
-
esse erro pode ser causado por
uma bactéria, substância tóxica ou vírus que têm, em sua superfície,
um antígeno muito semelhante a algum componente de nossas células (o que
acaba "confundindo" o sistema imunológico) - chamamos esses
agentes de gatilhos;
-
após esse erro, o organismo
passa a produzir anticorpos (auto-anticorpos) contra células
específicas, levando a uma doença auto-imune.
-
geralmente, o tratamento é
baseado em suprimir o sistema imunológico, não tratando a causa da doença,
uma vez que não temos ainda como alterar esse erro.
Diagnóstico
A hepatite autoimune
é caracterizada por:
-
anticorpos contra pontos
específicos dos hepatócitos (nucleares, citosólicos ou microssomais);
-
aumento nas gamaglobulinas (proteínas do sistema imunológico), especialmente a IgG;
-
pelo menos hepatite de
interface (necrose em saca-bocado ou hepatite periportal) à biópsia
hepática;
-
melhora com a corticoterapia;
-
os primeiros sintomas surgem em
períodos de exacerbação da doença, podendo ser fatais;
-
ausência de achados clínicos
ou laboratoriais que indiquem outra causa para a hepatite além da HAI.
Como não há um exame
específico para a HAI, o diagnóstico é baseado em um score
(sistema de pontos), onde características da HAI "ganham" pontos e
características que sugiram outras causas "perdem" pontos. Antes
do tratamento, pontuação maior de 15 significa diagnóstico de certeza e
de 10 a 15 seria uma "provável" HAI. Como uma das características da
HAI é a melhora com a corticoterapia, há pontuação após o tratamento:
acima de 17, certeza e entre 12 e 17 provável. Essa diferenciação existe
porque precisamos de um diagnóstico provável ou de certeza para começar um
tratamento. Se esse tratamento não surtir nenhum efeito benéfico, é pouco
provável que o diagnóstico de HAI esteja correto.
|
Score
Diagnóstico para HAI
|
|
Gênero |
|
Marcadores virais
|
|
Fenótipos HLA |
|
feminino |
+2 |
IgM anti-HAV ou
HBsAg
|
-3
|
B8-DR3 ou DR4 |
+1 |
|
Fosfatase alcalina / AST |
HCV RNA
|
-3
|
Resposta ao tratamento |
|
> 3 vezes |
-2 |
anti-HCV / RIBA
|
-2
|
completa |
+2 |
|
< 3 vezes |
+2 |
todos negativos
|
+3
|
parcial |
0 |
|
Gamaglobulina ou IgG |
Hemotransfusão
|
falência |
0 |
|
> 2,0 vezes |
+3 |
sim
|
-2
|
sem resposta |
-2 |
|
1,5 - 2,0 vezes |
+2 |
não
|
+1
|
recaídas |
+3 |
|
1,0 - 1,5 vezes |
+1 |
Álcool
|
- |
- |
|
< 1,0 vezes |
0 |
< 25 g/d
|
+2
|
- |
- |
|
ANA, SMA ou anti-LKM1 |
> 60 g/d
|
-2
|
- |
- |
|
> 1:80 |
+3 |
Outra doença autoimune
|
- |
- |
|
1:80 |
+2 |
paciente ou parente
|
+1
|
Score Diagnóstico |
|
1:40 |
+1 |
Achados histopatológicos
|
|
< 1:20 |
0 |
hepatite lobular e necrose em ponte
|
+3
|
Pré-tratamento |
|
Anticorpo
anti-mitocôndria |
necrose em ponte
|
+2
|
definitivo |
> 15 |
|
positivo |
-2 |
rosetas
|
+1
|
provável |
10-15 |
|
Drogas |
infiltrado plasmocitário intenso
|
+1
|
Pós-tratamento |
|
sim |
-2 |
alterações biliares
|
-1
|
definitivo |
> 17 |
|
não |
+1 |
alt. sugest. de outra patologia
|
-3
|
provável |
12-17 |
Classificação
São descritos 3 subtipos
de HAI, com características laboratoriais e clínicas diferentes, mas o
tratamento é idêntico. No futuro, é possível que cada um deles tenha um
tratamento específico para a sua causa, com melhores resultados.
|
Subtipos da HAI |
|
|
Tipo 1 (80%) |
Tipo 2 (4%) |
Tipo 3 (3%) |
|
Auto-anticorpos característicos
|
ANA, AML
|
Anti-LKM1 |
Anti-SLA/LP |
|
Auto-anticorpos associados
|
Anti-actina, pANCA |
Anti-LC1
|
ANA, AML
|
|
Autoantígenos |
desconhecido
|
P450 IID6 (CYP2D6) |
tRNP
|
|
Idade |
16-30 anos |
2-14 anos |
20-40 anos |
|
Gênero |
Feminino (70%) |
Feminino |
Feminino (91%) |
|
Doenças imunológicas comuns
|
Tireoidite autoimune
Sinovite
Colite ulcerativa
Doença de Graves
|
Diabetes
Vitiligo
Tireoidite autoimune
|
Tireoidite autoimune
Sinovite
Colite ulcerativa
Doença de Graves |
|
Aparecimento agudo
|
40%
|
Comum
|
Comum
|
|
HLAs associados
|
DR3, DR4 |
B14, DR3 |
DR3
|
|
Alelos susceptíveis
|
DRB1*0301, DBR1*0401
|
C4A-QO, DRB1*07 |
desconhecido
|
|
Hepatite fulminante |
Sim |
Sim |
- |
|
Cirrose aos primeiros
sintomas |
Sim (25%) |
Rápida |
Sim |
|
Tratamento |
Prednisona com ou sem
azatioprina |
ANA ( anticorpo antinúcleo );
AML ( anti músculo liso );
Anti-LKM1 ( microssomo fígado/rim 1 ); anti-SLA/LP ( anti
antígeno solúvel hepático/fígado pâncreas ); anti-LC1 ( anti citosol hepático
tipo 1 );
pANCA ( anticorpos citoplasmáticos anti-neutrofílicos perinucleares ).
Essa divisão em
três subtipos procura apenas agrupar características semelhantes
laboratoriais e clínicas, mas não é definitiva. Os auto-anticorpos
descritos em cada um deles pode existir nos demais. Se dividirmos a HAI pelo
auto-anticorpo encontrado, teremos outras classificações.
|
Auto-anticorpos
associados à HAI |
|
Auto-anticorpos |
Auto-antígenos |
Implicações
Clínicas |
|
ANA |
Histonas, centrômeros,
ribonucleoproteínas |
HAI tipo 1 |
|
AML |
Componentes actínicos e
não actínicos |
HAI tipo 1 |
|
Anti-LKM1 |
P450 IID6 (CYP2D6) |
HAI tipo 2 e Síndrome
autoimune poliglandular tipo 1 |
|
Anti-SLA/LP* |
tRNP(ser)sec |
HAI tipo 1, tipo 3 e
hepatite crônica criptogênica |
|
pANCA |
Desconhecido |
HAI tipo 1 e hepatite
crônica criptogênica |
|
Receptor
asialoglicoproteína* |
Glicoproteína
hepatocítica transmembrana |
Todas as HAI, reflete
atividade da doença e tendência a recidiva |
|
Actina* |
Actina polimerizada F |
HAI tipo 1, doença em
mais jovens e baixa freqüência de remissão |
|
Anti-LC1* |
Formiminotranferase,
ciclodeaminase, argininosuccinatoliase |
HAI tipo 2, doença em
mais jovens e mais agressiva |
*
em estudo ou de uso limitado
Portanto, essas
subdivisões têm função didática (para ensino) e científica (para
comparar tratamentos e investigar as causas da doença). Não há utilidade
do ponto de vista prático.
Tratamento
A prednisona,
sozinha ou em associação com a azatioprina,
produz remissão (normalização) clínica, bioquímica e histológica em
65% dos portadores de hepatite autoimune severa dentro de 2 anos. A
expectativa de vida após tratamento em 10 e 20 anos são acima de 80% e é
igual à da população da mesma região, idade e sexo. Portadores de
doença com o mesmo grau de agressividade, se não tratados, têm uma
mortalidade de 50% em 3 anos e 90% em 10 anos.
O risco-benefício
da corticoterapia (uso de corticosteróides, como a prednisona) em
portadores de doença mais leve não é tão clara. A cirrose se desenvolve em
49% em 15 anos e a mortalidade em 10 anos é de 10%. Com essa evolução mais
lenta, o custo-benefício do tratamento deve ser bem avaliado. Mudanças
cosméticas (espinhas, aumento de peso) ocorrem em 80% dos pacientes em 1 ano
de tratamento. O risco de câncer (fora do fígado) com a corticoterapia é
1,4 vezes o normal.
Consideramos como
indicações
absolutas de tratamento (onde ele é necessário):
Consideramos como
indicações
relativas (aonde ele possivelmente é necessário):
|
Indicações
de Tratamento
|
|
Absolutas |
Relativas |
Nenhuma |
|
AST constantemente acima de 10 vezes o normal |
AST menor que 10 vezes o normal |
Alteração mínima de AST ou gamaglobulina |
|
AST constantemente acima de 5 e gamaglobulinas
constantemente acima de 2 vezes o normal |
AST constantemente acima de 5 vezes o normal, mas gamaglobulinas
abaixo de 2 vezes |
Sintomas mínimos ou ausentes |
|
Necrose em ponte |
Hepatite periportal |
Cirrose inativa |
|
Necrose multilobular |
Sintomas leves a moderados, especialmente fadiga |
Insuficiência hepática com atividade inflamatória leve |
|
Sintomas incapacitantes |
-
|
Morbidades que podem piorar com o tratamento |
|
Progressão da doença |
-
|
-
|
O tratamento da
hepatite autoimune é realizado com prednisona (20 mg por dia) ou prednisona (10 mg por dia) em associação com azatioprina (50 mg por dia), conforme
tabela abaixo. O tratamento combinado é preferível, pois está associado a
menor incidência de efeitos colaterais (10%) que a prednisona sozinha (44%).
|
Esquema de tratamento
|
|
|
Início do tratamento |
Interrupção do tratamento |
|
Intervalos |
pred + aza (mg) |
pred (mg) |
pred + aza (mg) |
pred (mg) |
|
Semana 1 |
30 + 50 |
60 |
7,5 + 50 |
15 |
|
Semana 2 |
20 + 50 |
40 |
7,5 + 50 |
10 |
|
Semana 3 |
15 + 50 |
30 |
5 + 50 |
5 |
|
Semana 4 |
15 + 50 |
30 |
5 + 25 |
5 |
|
Semana 5 |
10 + 50 |
20 |
2,5 + 25 |
2,5 |
|
Semana 6 |
manutenção |
manutenção |
2,5 + 25 |
2,5 |
|
Semana 7 |
manutenção |
manutenção |
- |
- |
A escolha do esquema
depende, portanto, de diversos fatores:
|
Contra-indicações
relativas por medicação
|
|
Prednisona
|
Prednisona + azatioprina
|
|
Pós-menopausa
|
Citopenia
|
|
Osteopenia
|
Neoplasia ativa
|
|
Labilidade emocional
|
Gravidez ou desejo de engravidar
|
|
Acne ou sinais cushingóides
|
Intolerância a azatioprina
|
|
Obesidade
|
Baixa atividade da tiopurina metiltransferase
|
|
Hipertensão arterial lábil
|
Tentativa de tratamento curta ( < 6 meses )
|
|
Diabetes
|
-
|
O tratamento é
mantido até remissão ("cura") clínica, bioquímica e histológica,
toxicidade pelas drogas, falência do tratamento ou inabilidade de remissão
após 3 anos de tratamento ( resposta incompleta ). Mesmo após a normalização
dos exames laboratoriais, a melhora histológica pode demorar mais 3 a 6 meses,
portanto á necessária uma biópsia para avaliar a melhora histológica antes
de interromper o tratamento, diminuindo os riscos de reativação da doença. A
retirada da medicação também deve ser feita de forma gradual, em 6 semanas.
|
Alternativas
de tratamento em situações especiais
|
|
Situação
|
Opções
|
|
Primeira recidiva após retirada da medicação
|
Retratamento com o esquema tradicional
|
|
Múltiplas recidivas após retirada da medicação
|
Reduzir lentamente a dose de prednisona de modo a manter a mínima
dose necessária para sustentar AST < 5 vezes o normal
|
|
Azatioprina (2 mg/kg dia) indefinidamente após a retirada da
prednisona
|
|
Falência de tratamento
|
Altas doses de prednisona (60 mg dia) por 1 mês ou prednisona 30 +
azatioprina 150 por 1 mês seguidas de redução mensal até dose
convencional apenas se houver melhora laboratorial
|
|
Tratamentos empíricos, de eficácia duvidosa (6-mercaptopurina,
micofenolato mofetil ou ciclosporina)
|
|
Transplante hepático se descompensação apesar do tratamento
|
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Resposta incompleta após 3 anos de tratamento contínuo
|
Prednisona em baixas doses ou azatioprina indefinidamente
|
|
Transplante ao primeiro sinal de descompensação (ascite)
|
|
Toxicidade pelas drogas
|
Redução ou retirada da droga, dependendo da gravidade
|
|
Manutenção com a droga tolerável
|
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Tratamento com drogas alternativas (6-mercaptopurina, micofenolato
mofetil ou ciclosporina)
|
Recidivas
Recidivas ocorrem em
49% dos pacientes dentro de 6 meses da retirada do tratamento e em 74% em 3
anos, pois a causa da doença não é resolvida. Nesses casos, o tratamento é
reiniciado. Essas pessoas que têm recidiva são mais predispostas a novas
recidivas e progressão mais rápida da doença. Por esse motivo, aqueles que
têm múltiplas recidivas podem ter um tratamento alternativo (abaixo), com
bons resultados, sem alteração na sobrevida.
Falência
do tratamento
É a deterioração
clínica, laboratorial e/ou histológica mesmo com o tratamento adequado.
Utiliza-se então altas doses de prednisona e azatioprina, com melhora
laboratorial em 75% em 2 anos, mas com melhora histológica em apenas 20%.
Outros tratamentos, como 6-mercaptopurina, ciclosporina e tacrolimus não são
adequados.
O melhor tratamento
para aqueles com falência terapêutica é o transplante hepático. A sobrevida
em 5 anos é de 80% e os autoanticorpos e a hipergamaglobulinemia desaparece em
todos os pacientes em 2 anos. Pode haver recidiva da doença em 17%, mas nesses
raramente a recidiva leva a cirrose ou perda do fígado transplantado.