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Hemocromatose
Hereditária
Dr. Stéfano
Gonçalves Jorge
Introdução
A hemocromatose hereditária
(HH) é a mais comum doença genética, hereditária, na população caucasiana
(branca), alcançando até 1 em 200 pessoas descendentes de nórdicos
ou celtas. Trata-se de uma predisposição para a absorção excessiva de ferro
da alimentação. Este ferro acumula-se principalmente no fígado, pâncreas e coração,
podendo levar ao óbito por cirrose, hepatocarcinoma, insuficiência
cardíaca ou diabetes.
Nesse texto não abordaremos a
hemocromatose secundária e associada a outras doenças hepáticas, como a hepatite
C e a hepatopatia alcoólica,
aonde o depósito de ferro está associado a piora na evolução da doença,
não sendo no entanto incomum entre a hemocromatose hereditária e essas
condições. Também não serão abordadas as demais hemocromatoses secundárias
a outras patologias.
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CLASSIFICAÇÃO DAS
HEMOCROMATOSES |
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Hemocromatose Hereditária
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associada ao HFE (tipo 1)
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C282Y homozigose
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C282Y/H63D heterozigose composta
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não associada ao HFE
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hemocromatose juvenil (tipo 2)
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mutação hepcidina (2A)
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mutação hemojuvelina (2B)
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hemocromatose tipo 3 (mutação do receptor 2 da
transferrina)
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mutação da ferroportina tipo 4 (hemocromatose autossômica
dominante)
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Sobrecarga de ferro adquirida (secundária)
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anemias carregadoras de ferro
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talassemia maior
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anemia sideroblástica
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anemia hemolítica crônica
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sobrecarga dietética de ferro (Africana)
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sobrecarga parenteral de ferro (incluindo politransfusão)
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Outras causas (raramente no grau observado na HH)
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hemodiálise prolongada
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hepatopatia crônica
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hepatite
C
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hepatopatia alcoólica
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esteato-hepatite não alcoólica
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porfiria cutânea tarda
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síndrome da sobrecarga de ferro dismetabólica
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pós shunt portocava
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sobrecarga de ferro na Africa sub-sahariana
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sobrecarga de ferro neonatal
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aceruloplasminemia
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atransferrinemia congênita
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Etiologia
O controle da quantidade de ferro em
nosso organismo é basicamente dependente da absorção intestinal do mesmo.
Não temos nenhum mecanismo fisiológico para eliminar o ferro se ele estiver em
excesso, além de controlar a absorção e depender da perda mínima decorrente
da perda de células, como células intestinais e sangue durante a
menstruação.
Na hemocromatose hereditária,
mutações genéticas (geralmente transmitidas de pais para filhos) levam a um
aumento na absorção do ferro no intestino (duodeno e jejuno proximal), o que
leva ao acúmulo do metal no organismo.
Desde a descoberta do gene HFE,
que regula a absorção de ferro, duas mutações nesse gene foram descritas e
são responsáveis pela maioria dos casos de hemocromatose hereditária: a C282Y
e a H63D. Famílias com hemocromatose sem ambas as mutações, no
entanto, mostram
que outros genes devem estar envolvidos.
  
Biopsias hepáticas com hemocromatose. Na primeira, corada com HE, observa-se o ferro como
granulações alaranjadas. Na segunda, corada com Perls, o ferro aparece azul.
Sintomas
Os sintomas são, na maioria dos casos :
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Fadiga
-
Fraqueza
-
Dor abdominal
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Perda de peso
-
Amenorréia (ausência de menstruações)
-
Dor nas juntas
-
Insuficiência hepática (fibrose, cirrose, etc)
-
Carcinoma hepatocelular (cancêr de fígado)
-
Diabetes
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Insuficiência e arritmia cardíacas.
Diagnóstico
A recomendação da AASLD (Associação Americana para o Estudo de Doenças do Fígado) para o
diagnóstico
da hemocromatose hereditária é um algoritmo que leva em consideração as características
e o alto custo dos exames (o estudo genético custa cerca de US$
2.700) para detectar o maior numero possível de doentes. Este algoritmo de 3
passos começa com a detecção daqueles com acumulo de ferro, depois com a confirmação
genética e posteriormente avalia o grau de lesão de órgãos.
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Devem ser investigados
(AASLD) |
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Sintomáticos
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Manifestações inexplicáveis de doença hepática ou
com alteração dos exames indiretos de ferro
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Diabetes mellitus tipo 2 com hepatomegalia, alteração
de enzimas hepáticas, doença cardíaca ou disfunção sexual precoce
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Doença articular atípica precoce, cardiopatia e disfunção
sexual masculina
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Assintomáticos
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Parentes de primeiro grau de indivíduos com
hemocromatose
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Alteração dos exames indiretos de ferro em exames de
rotina
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Elevação de enzimas hepáticas, hepatomegalia ou
aumento da atenuação do fígado em tomografia
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Diagnóstico
da Hemocromatose Passo a Passo

Evolução Clinica
A doença inicia-se com o
acumulo lento e insignificante de ferro no organismo (0-5 g). Em um segundo
estagio, já ha excesso de ferro (10-20 g) que, se não tratado, pode levar a lesão
de órgãos, geralmente apos 40 anos de idade e mais que 20 g de ferro
acumulado. Nosso objetivo, portanto, é detectar estes pacientes antes da
terceira fase. Felizmente, marcadores indiretos do ferro acumulado permitem o
diagnostico precocemente e prevenir o aparecimento da doença.
O depósito contínuo de ferro no
fígado desencadeia um processo inflamatório, o desenvolvimento de fibrose e,
com o tempo, a fibrose pode evoluir para cirrose e o
surgimento de hepatocarcinoma
(especialmente na homozigoze C828Y).
Tratamento
O tratamento utilizado
globalmente, de eficácia comprovada, relativamente barato e praticamente inócuo
é a flebotomia (sangria) periódica, ou seja, a retirada de sangue. As células vermelhas do
sangue contem hemoglobina, da qual o ferro é componente importante
(normalmente, 70% do ferro no nosso organismo está concentrado na hemoglobina).
Com a retirada periódica de sangue (nos pacientes com ferritina sérica >
1.000 ng/ml, geralmente uma bolsa de sangue por semana, com nova dosagem de
ferritina a cada 4 a 8 semanas), ocorre o deslocamento do ferro depositado nos
tecidos para a formação de novas moléculas de hemoglobina, até que não há
mais excesso (no início do tratamento, definido como ferritina sérica menor ou
igual a 20 ng/ml). Depois, são realizadas novas flebotomias em intervalos
variáveis procurando manter o valor de ferritina sérica menor ou igual a 50
ng/ml. Com esses cuidados, não costuma surgir anemia significativa durante o
tratamento e a evolução da doença é interrompida, não levando a progressão
das lesões nos órgãos-alvo.

Molécula de hemoglobina. A porção verde é a fração
"heme", que contém ferro.
Outra opção de tratamento,
usada especialmente nos que não toleram a flebotomia pela presença de anemia,
é a quelação (uso de medicação que se une a íons metálicos e é eliminada
do organismo). O único agente quelante utilizado disponível até há pouco
tempo era a desferrioxamina (DFO), medicação usada por via endovenosa
geralmente com uma bomba de infusão, pois a aplicação deve ser feita
lentamente (entre 8 a 12 horas) ou por via subcutânea. Apesar dos benefícios,
a medicação é tóxica, levando a irritação no local da aplicação,
deformidades ósseas, retardo no crescimento de crianças e efeitos
neurotóxicos visuais e auditivos.
Recentemente, a deferiprona
(ferriprox®) e o deferasirox (exjade®) foram introduzidos como opções mais
acessíveis, pela sua administração oral,
eficácia comparável à desferrioxamina e menor índice de efeitos colaterais.
No entanto, pode levar a efeitos colaterais como agranulocitose, leucopenia,
artralgia, náuseas e vômitos, dor abdominal e hepatotoxicidade,
não sendo portanto uma opção razoável à flebotomia nos pacientes sem
contra-indicação a esse procedimento.
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Artigo criado em:
2003
Última revisão: 12/12/06
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