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Exames laboratoriais
Dr.
Stéfano Gonçalves Jorge
INTRODUÇÃO
Há um grande
número de exames laboratoriais disponíveis comercialmente que têm
utilidade na avaliação do paciente com suspeita de doença hepática ou na
investigação da sua causa. Os exames podem ser classificados de modo
didático em:
-
Testes para avaliação de
lesão hepatocelular (destruição de hepatócitos);
-
Testes para avaliação do
fluxo biliar e lesão de vias biliares;
-
Testes para avaliação da
função de síntese do fígado;
-
Testes para avaliação de
complicações e estágio da cirrose;
-
Testes para investigação da
etiologia (causa) da doença hepática (abordados em outros textos).
O termo
"função hepática" geralmente é utilizado erroneamente na
prática clínica para descrever um conjunto de exames laboratoriais que
não investigam apenas a função do fígado, mas também a presença de
lesão hepatocelular e de vias biliares. Costuma incluir AST, ALT, fosfatase
alcalina, GGT, albumina, bilirrubinas total e frações e atividade da
protrombina.
1. Testes
para avaliação de lesão hepatocelular
1.1 Aminotransferases
1.1.1 Aspartato aminotransferase
(AST)
-
também pode ser chamada de
transaminase glutâmico oxaloacética (TGO)
-
é uma enzima que catalisa a
reação: aspartato + alfa-queroglutarato = oxaloacetato + glutamato
-
é encontrada em altas
concentrações no citoplasma e nas mitocôndrias do fígado, músculos
esquelético e cardíaco, rins, pâncreas e eritrócitos (glóbulos
vermelhos do sangue); quando qualquer um desses tecidos é danificado, a
AST é liberada no sangue
-
como não há um método
laboratorial para saber qual a origem da AST encontrada no sangue, o
diagnóstico da causa do seu aumento deve levar em consideração a
possibilidade de lesão em qualquer um dos órgãos onde é encontrada
-
valores normais: até 31 U/L
(mulheres) e 37 U/L (homens)*
1.1.2 Alanina aminotransferase
(ALT)
-
também pode ser chamada de
transaminase glutâmico pirúvica (TGP)
-
é uma enzima que catalisa a
reação: aspartato + alfa-queroglutarato = piruvato + glutamato
-
é encontrada em altas
concentrações apenas no citoplasma do fígado, o que torna o seu
aumento mais específico de lesão hepática; no entanto, pode estar
aumentada em conjunto com a AST em miopatias (doenças musculares)
severas
-
valores normais: até 31 U/L
(mulheres) e 41 U/L (homens)*

Microscopia eletrônica de hepatócito. As mitocôndrias (M)
são organelas responsáveis principalmente pela produção de energia nas
células. O citoplasma é o espaço da célula entre o núcleo (essa
estrutura circular que ocupa grande parte da figura) e a membrana celular,
que reveste a célula. É preenchido por uma matéria semi-fluida denominada
hialoplasma aonde estão suspensas as organelas da célula.
1.1.3 Relação AST/ALT
-
além das características
individuais, a relação entre o aumento das enzimas tem valor
diagnóstico
-
tanto a AST quanto a ALT
costumam subir e descer mais ou menos na mesma proporção em doenças
hepáticas
-
elevações pequenas de ambas,
ou apenas de ALT em pequena proporção, são encontradas na hepatite
crônica (especialmente hepatite C e esteato-hepatite
não alcoólica)
-
como na hepatite
alcoólica há maior lesão mitocondrial, proporcionalmente, do que
nas outras hepatopatias, observa-se tipicamente elevação mais
acentuada (o dobro ou mais) de AST (que é encontrada nas mitocôndrias)
do que de ALT, ambas geralmente abaixo de 300 U/L
-
elevações de ambas acima de
1.000 U/L são observadas em hepatites agudas virais ou por drogas
| Causas de aumento de
aminotransferases no sangue |
| Doenças hepatobiliares |
| Doenças do miocárdio |
| Doença pancreática |
| Doença muscular |
| Álcool |
| Ligação a imunoglobulina (rara) |
| Doença não-hepatobiliar
com envolvimento hepático |
obesidade / diabetes |
| hemocromatose |
| deficiência de
alfa-1-antitripsina |
| infecção pelo HIV |
| hipertireoidismo |
| doença celíaca |
1.2 Desidrogenase lática (DHL)
-
é observado em lesões
hepatocelulares de modo geral
-
pode ser útil na
diferenciação entre hepatite aguda viral e lesão causada por isquemia
ou paracetamol; sugere-se que, em elevações de aminotransferases acima
de 5 vezes o limite superior, uma relação ALT/DHL maior que 1,5 sugere
hepatite viral
-
valores normais: 24-480 U/L*
2. Testes
para avaliação do fluxo biliar e lesão de vias biliares
2.1 Fosfatase alcalina
-
trata-se não de uma enzima,
mas de uma família de enzimas, presente em praticamente todos os
tecidos; no fígado, é encontrado principalmente nos microvilos
dos canalículos biliares e na superfície sinusoidal dos hepatócitos

Estrutura da fosfatase alcalina (nesse caso, de leucócitos)
-
o aumento da fosfatase
alcalina hepática é mais evidente na obstrução biliar, aonde o
acúmulo de sais biliares a solubilizam e a obstrução promove a sua
regurgitação entre as células hepáticas até o sangue
-
em casos de elevação da
fosfatase alcalina aonde não observa-se sinais clínicos ou
laboratoriais de doença hepatobiliar, é possível a diferenciação
entre as principais isoenzimas (hepática, óssea e intestinal) para
localizar a fonte da alteração.
-
valores normais variam de
acordo com a idade: 1 dia de idade: até 250 U/L; 2 - 5 dias: até
231 U/L; 6 dias - 6 meses: até 449 U/L; 7 meses - 1 ano: até 462 U/L;
2 - 3 anos: até 281 U/L; 4 - 6 anos: até 269 U/L; 7 - 12 anos: até
300 U/L; 13 - 17 anos: até 187 U/L (mulheres) e 390 U/L (homens);
adultos: 35 a 104 U/L (mulheres) e 40 a 129 U/L (homens)*
|
Causas de aumento "isolado" de fosfatase
alcalina |
|
Aumento da isoenzima
hepática |
Metástases hepáticas
ou doença infiltrativa
Cirrose biliar primária
Colelitíase
Aumento discreto com a idade
|
|
Aumento da isoenzima
óssea |
Fisiológica (infância, puberdade, pós-menopausa)
Doença osteoblástica (Paget, osteomalacia, metástases)
|
|
Aumento da isoenzima
intestinal |
Doença hepática (cirrose)
Diabetes mellitus
Insuficiência renal crônica
Doença intestinal ( linfoma, doença cadeia a
)
Fisiológica ( discreta ) – aumento com ingesta de gorduras
Secretores de sangue grupo O e B
|
|
Isoenzima placentária |
Gestação normal
Doença maligna (discreto)
Cirrose infantil indiana
|
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Formas variantes ou não usuais |
Ligada a imunoglobulinas (doença autoimune, doença inflamatória
intestinal)
Derivada de tumores ( ovariano, testicular, hepatocarcinoma )
Fígado-símile mais osso (hiperfosfatasemia benigna transitória - aumento severo)
|
|
Geneticamente determinado |
Qualquer das isoenzimas |
2.2 Gama glutamiltransferase (GGT)
-
é uma enzima encontrada em
grande quantidade no fígado, rins, pâncreas, intestino e próstata,
mas também está presente em vários outros tecidos
-
apesar de elevações muito
grandes estarem associadas principalmente a câncer primário ou
secundário do fígado e a obstrução biliar, alterações menores são
poucos específicas de doenças do fígado; por outro lado, é um
marcador muito sensível de doença hepática, pois está alterado em
90% dos portadores de doença hepatobiliar
-
observa-se que cerca de 15%
das pessoas tem a GGT acima dos valores considerados normais sem a
presença de qualquer doença, mesmo com valores acima de 100 U/L
-
elevações da GGT também
podem estar associadas, sem nenhum significado patológico, ao uso de
álcool e algumas medicações
-
valores normais: 8 a 41 U/L
(mulheres) e 12 a 73 U/L (homens)*
|
Causas de aumento plasmático de gama glutamiltransferase |
|
Doença hepatobiliar |
|
Doença pancreática |
|
Álcool |
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Drogas ( especialmente indutores enzimáticos, como barbitúricos) |
|
Doenças não hepatobiliares com envolvimento hepático (aumento leve)
|
Anorexia nervosa
Distrofia miotônica
Síndrome de Guillain-Barré
Hipertireoidismo
Síndrome metabólica
Após infarto do miocárdio
Porfiria cutânea tarda |
|
Doença neurológica (aumento leve) |
|
Doença maligna / radioterapia |
2.3 Bilirrubinas
-
A bilirrubina, principal
componente dos pigmentos biliares, é o produto final da destruição da
porção "heme" da hemoglobina e outras hemoproteínas. A
primeira bilirrubina a ser produzida nesse processo é a bilirrubina
indireta (também chamada de bilirrubina não conjugada).
Essa bilirrubina sofre o processo de conjugação e passa a ser bilirrubina
direta (ou conjugada);

Metabolismo da
bilirrubina: (1) destruição do heme e formação da bilirrubina; (2) transporte
da bilirrubina pelo plasma, ligada à albumina; (3) captação
da bilirrubina do plasma pelo hepatócito; (4) conversão
no hepatócito da bilirrubina não conjugada em conjugada; (5) transporte
da bilirrubina conjugada pela membrana biliar.
-
os termos "direta" e
"indireta" referem-se ao método criado para diferenciá-las
por van den Bergh e Muller em 1916, mas que persistem até hoje (gerando
confusão desnecessária);
-
o aumento da bilirrubina
indireta, portanto, é causado pelo aumento da degradação do heme
ou deficiência da conjugação no fígado;
|
Causas de hiperbilirrubinemia |
|
Não-conjugada (pré-microssomal)
Produção excessiva de bilirrubina (hemólise)
Hematopoese inefetiva
Distúrbios hemolíticos
Metabolismo anormal de bilirrubina (congênito)
Imaturidade dos sistemas enzimáticos
Icterícia fisiológica do recém nascido
Icterícia da prematuridade
Defeitos herdados
Síndrome de Gilbert
Síndrome de Crigler-Najjar
Efeito de drogas
|
|
Conjugada e não conjugada (pós-microssomal)
Distúrbio hepatocelular
Doença hepatocítica primária (cirrose, hepatite,
neoplasia, drogas)
Colestase intra-hepática (drogas,
colestase)
Icterícia pós-operatória benigna
Hiperbilirrubinemia conjugada congênita
Síndrome de Dubin-Johnson
Síndrome de Rotor
Obstrução mecânica dos ductos biliares (icterícia obstrutiva)
Extra-hepática (cálculos, neoplasia, estenose, atresia)
Intra-hepática (colangiopatia obstrutiva infantil, colangite
esclerosante, CBP)
|
-
o aumento da bilirrubina
direta é causado principalmente por deficiência na eliminação da
bilirrubina pela bile;
-
o aumento de ambas pode
ser causado por obstrução do fluxo de bile (mas com predomínio do
aumento da bilirrubina direta) ou por lesão mais intensa dos
hepatócitos (onde há deficiência na conjugação e também refluxo da
bilirrubina conjugada para o sangue);
| Causas
de aumento da bilirrubina conforme a bilirrubina predominantemente
aumentada |
|
Bilirrubina
não-conjugada (indireta)
|
Bilirrubina
conjugada (direta)
|
|
Aumento
da produção de bilirrubina
|
Hemólise
|
Eritropatias
|
Doença
do fígado
|
Doença
hepatocelular (ex: hepatites)
|
|
Hiperesplenismo,
autoimune
|
Doença
colestática (ex: CBP)
|
|
Eritropoese
ineficaz (ex: talassemias)
|
Distúrbio
do metabolismo
|
S. de
Dubin-Johnson
|
|
Destruição
de hematomas
|
Síndrome
de Rotor
|
|
Redução
da conjugação
|
Hiperbilirrubinemia
neonatal
|
Colestase
benigna
|
|
Jejum
|
Colestase
da gravidez
|
|
Síndrome
de Gilbert
|
Doenças
extra-hepáticas
|
Doença
do trato biliar (ex: tumor)
|
|
Síndromes
de Crigler-Najjar
|
Doença
pancreática (ex: carcinoma)
|
-
assim, a dosagem das
bilirrubinas é um exame que pode avaliar ao mesmo tempo lesão
hepatocelular, fluxo biliar e função de síntese do fígado;
-
valores normais em adultos:
total : 0,20 a 1,00 mg/dL; direta : 0,00 a 0,20 mg/dL; indireta: 0,20 a
0,80 mg/dL*
-
valores normais da bilirrubina
total em recém-nascido prematuro: 1 dia: 1,00 a 8,00 mg/dL; 2 dias:
6,00 a 12,00 mg/dL; 3 - 5 dias: 10,00 a 14,00 mg/dL*
-
valores normais da bilirrubina
total em recém-nascido a termo: 1 dia: 2,00 a 6,00 mg/dL; 2 dias: 6,00
a 10,00 mg/dL; 3 - 5 dias: 4,00 a 8,00 mg/dL*
3. Testes para avaliação da
função de síntese do fígado
3.1 Fatores da coagulação e
atividade de protrombina
-
o fígado tem papel central na
hemostasia - sintetiza a maioria dos fatores e inibidores da
coagulação, além de algumas proteínas do sistema fibrinolítico e
elimina enzimas ativas dos sintemas de coagulação e fibrinólise;
assim, doenças hepáticas severas costumam cursar com alterações na
coagulação;
-
a falta de fatores da
coagulação podem ocorrer por perda da função dos hepatócitos, mas
também por falta de "matéria prima" para a sua síntese - a
síntese da maioria dos fatores de coagulação é dependente da vitamina
K, que não é produzida no nosso organismo e precisa ser absorvida
da dieta;
-
como a absorção da vitamina
K é dependente da presença de sais biliares e a cirrose diminui a sua
produção (especialmente nas doenças colestáticas, como a cirrose
biliar primária e a colangite
esclerosante primária), espera-se no cirrótico algum grau de
deficiência dessa vitamina, que pode ser suplementada por via
parenteral (injeção);

Cascata da coagulação. Note que a atividade da protrombina
(ao centro) depende da presença de fatores da coagulação.
-
na insuficiência hepática
e/ou na deficiência de vitamina K, o primeiro fator a diminuir é o
VII, seguido do II, X e IX;
-
a síntese do fator V é
independente da vitamina K; portanto, uma deficiência dos fatores II,
VIII, IX e X sem deficiência do fator V (se essas deficiências se
mantiverem após suplementação da vitamina K);
-
na prática clínica, a
determinação da atividade da protrombina (ou tempo de
protrombina) é um método simples, barato e facilmente realizável para
avaliar o conjunto dos fatores de coagulação e, portanto, da função
de síntese do fígado;
-
os valores normais de tempo de
protrombina estão entre 11,1 e 13,2 segundos e são comparados em
relação a plasma controle, analisando-se o tempo de atraso em
relação ao controle ou através do RNI (international normalized
ratio) que normalmente está entre 0,9 e 1,1*
3.2 Albumina
-
a albumina é a principal
proteína circulante no organismo humano e é responsável entre outras
coisas, pelo transporte de substâncias (entre elas medicamentos) pelo
sangue e pela maior parte da pressão
coloidosmótica do plasma;
-
o fígado é o único órgão
responsável pela produção da albumina; reduções na quantidade da
albumina no sangue (hipoalbuminemia), no entanto, podem não ser
causadas por doenças do fígado, mas também por falta de
"matéria prima" para a sua síntese (como nas desnutrições
protéicas) ou aumento na sua destruição (estados catabólicos
intensos) ou perda (intestinal ou renal);
|
Causas de hipoalbuminemia sérica |
|
Diminuição de síntese
Desnutrição
Malabsorção
Doença hepática
Doença maligna
|
|
Aumento da perda
Proteinúria (síndrome nefrótica)
Enteropatia perdedora de proteínas – DII
Queimaduras
Doença exsudativa da pele
|
|
Aumento do catabolismo
Estados hipercatabólicos (traumatismos, pós-cirurgico)
|
|
Erro da distribuição intra/extravascular (aumento da permeabilidade
vascular)
Estados inflamatórios (reação de fase aguda)
|
|
Hiperidratação |
|
Variação genética
Analbuminemia
|
|
Síntese interrompida
Condições inflamatórias agudas e crônicas
|
-
como a meia-vida
da albumina é relativamente alta (cerca de 20 dias), a redução da
síntese pelo fígado pode demorar vários dias para se manifestar
laboratorialmente (pela dosagem da albumina no sangue) ou clinicamente
(especialmente pela formação de edema e ascite);
-
na cirrose, excluindo-se
outras causas, a hipoalbuminemia reflete principalmente a redução a
síntese pelo fígado com alguma influência da desnutrição, que pode
ser decorrente também da doença hepática; assim, a dosagem da
albumina sérica tem importância dupla na avaliação do estágio da
cirrose, participando do cálculo das classificações de Child-Pugh
e do MELD.
-
valores normais: 3,5 a 5,2
g/dL*
4. Testes para avaliação de
complicações e estágio da cirrose
4.1 Classificação de Child-Pugh
|
Classificação de
Child-Pugh1 |
|
Encefalopatia
hepática2 |
ausente |
1-2 |
3-4 |
|
Ascite |
ausente |
leve |
moderada/severa |
|
Albumina |
> 3,5 |
2,8-3,5 |
< 2,8 |
|
Bilirrubina total3 |
< 2,0 |
2,0-3,0 |
> 3,0 |
|
Tempo de protrombina4 |
1-4 |
4-6 |
> 6 |
|
Pontos: |
1 |
2 |
3 |
|
A: 5-6 pontos |
B: 7-9 pontos |
C: 10-15 pontos |
Notas: 1soma-se os
pontos para cada um dos cinco itens; 2classificação de West Haven; 3na
cirrose biliar primária, utilizar os seguintes valores de bilirrubina
total: 1-4 (1 ponto), 4-10 (2 pontos) e > 10 (3 pontos); 4segundos
após o controle - é possível também utilizar o valor de RNI: < 1,7 (1
ponto), 1,7-2,3 (2 pontos) e > 2,3 (3 pontos)
-
a classificação, no entanto,
tem sido utilizada por décadas na prática hepatológica como um modo
de classificar, ainda que de modo grosseiro, o paciente cirrótico em
três estágios (A, B e C), com grau progressivo de complicações da
cirrose;
-
mesmo assim, a classificação
de Child-Pugh é incapaz de prever o prognóstico (expectativa de vida),
com um mínimo de precisão, quando avaliada individualmente; a
tendência atual é a de utilizar a classificação de MELD/PELD
e abandonar a de Child-Pugh.
4.2 Alfa-fetoproteína
-
é uma proteína que pode estar
aumentada em 70-90% dos pacientes com carcinoma
hepatocelular; apesar de ter valor limitado (também está aumentada
na hepatite crônica em atividade), a associação da dosagem de
alfa-fetoproteína e exame de imagem (preferencialmente ultrassonografia)
é recomendada a cada 6 meses (ou a cada 3 meses em indivíduos de maior
risco) em pacientes cirróticos para o diagnóstico precoce de câncer.
4.3 Plaquetas
-
a redução na quantidade de
plaquetas no sangue (plaquetopenia) é comum em portadores de doenças
hepáticas crônicas por cinco mecanismos principais: aumento do sequestro
e destruição pelo baço aumentado (hiperesplenismo), redução na
produção pela medula óssea, deficiência de ácido fólico,
destruição por mecanismos imunológicos e por coagulação intravascular
disseminada;
-
a plaquetopenia ainda é de
importância no paciente portador crônico de hepatite C com indicação
de tratamento com interferon, pois durante o tratamento costuma haver
exacerbação dos mecanismos imunológicos envolvidos na destruição das
plaquetas, podendo levar a plaquetopenia severa e a hemorragias;
-
como a quantidade de plaquetas
reflete e é grosseiramente proporcional ao grau de hipertensão portal
(que leva à esplenomegalia e ao sequestro de certo modo proporcional ao
aumento do baço), que por sua vez também é proporcional ao grau de
fibrose hepática, a dosagem de plaquetas têm sido utilizada como método
indireto de avaliação do grau de fibrose hepática e como
preditor do risco de surgimento de varizes
gastroesofágicas.
4.4 FibroTest®
-
é um método não invasivo,
criado por Imbert-Bismuth e colegas onde, através de um algoritmo
matemático com base em cinco variáveis (bilirrubina
total, GGT,
haptoglobina, alfa-2-macroglobulina e apoliproteina A1), com resultado
entre 0 e 1, procura-se estimar o grau de fibrose hepática;
-
o método é muito preciso para
o diagnóstico de ausência (com resultado <
0,1) ou presença (>0,6) de fibrose significativa, mas é pouco útil
na avaliação de estágios intermediários;
-
tem sido estudado como opção
à biópsia hepática pré e pós tratamento em pacientes com hepatites
virais (especialmente hepatite C) e na
avaliação de portadores de esteato-hepatite não
alcoólica.
4.5 MELD/PELD
-
o Modelo para Doença Hepática
Terminal (Model for End-Stage Liver Disease) é uma escala numérica
criada para avaliação da gravidade da doença heática, em uma escala de
6 a 40, utilizando um algoritmo matemático baseado em três variáveis: bilirrubina
total, RNI e creatinina (que mede a função
do rim);
-
o PELD (Pediatric End-Stage
Liver Disease) é uma escala semelhante, criada para crianças com menos
de 1 ano de idade, baseada em cinco variáveis: bilirrubina
total, RNI, albumina,
se há distúrbio de crescimento e se a criança tem mais ou menos que 1
ano de idade;
|
Algoritmo de cálculo
MELD/PELD |
|
MELD =
0,957 x Log e (creatinina mg/dl)
+ 0,378 x Log e (bilirrubina mg/dl)
+ 1,120 x Log e (INR)
+ 0,643
x 10 e arredondar para valor inteiro
-
Caso os valores de laboratório sejam menores que 1, arredondar para
1,0.
- A creatinina poderá ter valor máximo de 4,0, caso seja maior que
4,0 considerar 4,0.
Caso a resposta
seja sim para a questão da diálise (realiza diálise mais de duas
vezes por semana?), o valor da creatinina automaticamente se torna
4,0. |
PELD =
0,480 x Log e (bilirrubina mg/dl)
+ 1,857 x Log e (INR)
- 0,687 x Log e (albumina mg/dl)
+ 0,436
se o paciente tiver até 24 meses de vida
+
0,667 se o paciente tiver déficit de crescimento menor 2
x 10
-
Caso os valores de laboratório sejam menores que 1, arredondar para
1,0.
-
Cálculo do valor do déficit de crescimento baseado no gênero, peso
e altura. |
-
o MELD e o PELD, pelo seu perfil
de reprodutibilidade e disponibilidade, ganhou mais importância no Brasil
em 29 de março de 2006, quando o Ministério da Saúde publicou a Portaria
1.160, modificando o funcionamento da ordem da lista de transplante de
fígado de cronológica para gravidade, baseada neste critério;
-
os cálculos do MELD e do PELD
podem ser feitos online aqui.
BIBLIOGRAFIA
-
Questions and answers for patients
and families about MELD and PELD. Unos.org
-
Fox RK, Wright TL, Viral Hepatitis in Current Diagnosis & Treatment in
Gastroenterology
-
Rosalki, SB e McIntyre, N em Bircher, J, Benhamou, JP et al.
Oxford Textbook of Clinical Hepatology, Oxford Medical Publications,1999.
-
Denninger, MH em Bircher, J, Benhamou, JP et al.
Oxford Textbook of Clinical Hepatology, Oxford Medical Publications,1999
-
Pugh RN, Murray-Lyon IM, Dawson JL,
Pietroni MC, Williams R. Transection of the oesophagus for bleeding
oesophageal varices. Br J Surg 1973; 60: 646-9.
-
Thomopoulos KC;
Labropoulou-Karatza C; Mimidis KP; Katsakoulis EC; Iconomou G;
Nikolopoulou VN Non-invasive predictors of the presence of large
oesophageal varices in patients with cirrhosis.Dig Liver Dis. 2003;
35(7):473-8
-
Bressler B; Pinto R;
El-Ashry D; Heathcote EJ Which patients with primary biliary
cirrhosis or primary sclerosing cholangitis should undergo endoscopic
screening for oesophageal varices detection? Gut. 2005; 54(3):407-10
-
Laurent Castera, MD; Jean-Michel
Pawlotsky, MD Noninvasive Diagnosis of Liver Fibrosis in Patients With Chronic
Hepatitis C Medscape
General Medicine
-
Imbert-Bismut F, Ratziu V, Pieroni
L, Charlotte F, Benhamou Y, Poynard T. Biochemical markers of liver fibrosis
in patients with hepatitis C virus infection: a prospective study. Lancet.
2001; 357: 1069-1075.
OBSERVAÇÕES
* Os intervalos
considerados como referência nesse artigo são os utilizados pelo
Laboratório Fleury apenas para fins didáticos. Esse intervalo pode variar de acordo com o método e
aparelhagem utilizados, portanto é mais confiável se basear nas
referências do laboratório onde o exame foi realizado. Não há nenhuma
relação comercial entre o Hepcentro e o Laboratório Fleury.

Artigo criado em: 17/12/06
Última atualização:
21/12/06
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