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Encefalopatia
Hepática
Dr.
Stéfano Gonçalves Jorge
INTRODUÇÃO
A encefalopatia
hepática é uma manifestação de doenças no fígado, aonde há um
excesso de produtos tóxicos provenientes da alimentação e do próprio
fígado, que deveria eliminá-las. A encefalopatia surge quando o
fígado torna-se incapaz de eliminar ou transformar esses tóxicos pela
destruição das suas células e/ou porque o sangue que vem do sistema
digestivo é desviado do seu caminho normal e vai direto para a
circulação geral (incluindo a do cérebro) sem passar pelo fígado
antes.
FISIOPATOGENIA
Praticamente todo
o sangue que passa pelo tubo digestivo, desde a parte final do esôfago
até o ânus, recebe os produtos da digestão e absorção dos
alimentos. Esses produtos não podem ser distribuídos diretamente aos
outros órgãos, pois muitos são tóxicos ou precisam ser
transformados antes de entrarem na circulação. Esse sangue corre por
veias que vão se unindo até chegar na veia porta hepática, que
é a principal fonte de sangue do fígado (há ainda a artéria hepática,
que é necessária para trazer mais oxigênio ao fígado).

No interior do fígado,
o sangue flui da veia porta para veias cada vez mais finas, até que
chega aos sinusóides (aonde os hepatócitos processam os produtos da
digestão, além de muitas outras funções) e depois é coletado pelas veias centrolobulares, que levam o sangue
para fora do órgão até as veias hepáticas, depois para a veia cava
inferior e o coração, de onde o sangue com os nutrientes será
distribuído por todo o organismo.

Na cirrose,
há a formação de cicatrizes no interior do fígado, distorcendo toda
a sua estrutura, o que prejudica o fluxo de sangue. Com o fluxo
reduzido, a pressão do sangue em todas as veias aumenta, o que chamamos
de hipertensão portal. Essa hipertensão no sistema porta hepático
pode trazer diversas conseqüências, como inchaço nas pernas, falta de
ar (síndrome hepato-pulmonar), falência dos rins (síndrome hepato-renal),
ascite e a dilatação
de veias. Essa dilatação ocorre em todas as veias que levam sangue
até o fígado (uma das consequências disso é o surgimento de varizes
de esôfago). Com essa dilatação, também dilatam veias (antes
finas) que ligam as veias "antes" do fígado com a veia cava,
fazendo um "curto-circuito" (shunt) que desvia parte
do sangue do fígado para a circulação geral, incluindo o cérebro.
 
Amônia (NH3)
Não há uma
explicação clara para o surgimento da encefalopatia hepática. A
maioria das teorias baseia-se na comprovação de que a concentração
de amônia no sangue está aumentada nos cirróticos,
especialmente naqueles com encefalopatia. A amônia é produzida
principalmente no intestino e deveria ser transformada em uréia (ou
glutamina, a partir de glutamato) pelo fígado e eliminada pelas fezes
e urina. Essa amônia em excesso, no cérebro, afeta os
neurotransmissores e portanto o funcionamento cerebral. Os efeitos da
amônia no cérebro incluem a redução nos potenciais pós-sinápticos,
aumento na captação de triptofano (cujos metabólitos, entre eles a
serotonina, são neuroativos), redução no ATP com perda de energia e
o aumento da osmolaridade intracelular dos astrócitos (pela formação
de glutamina), que leva ao seu inchaço e vasodilatação cerebral.
Diversas outras
teorias ajudam a explicar a encefalopatia hepática, pois a
concentração de amônia no sangue, apesar de aumentada na
encefalopatia, não está diretamente relacionada ao grau da doença.
Excesso de mercaptanos, manganês e de ácidos graxos de cadeia curta,
desequilíbro entre aminoácidos aromáticos e não aromáticos, são
outras explicações para a doença.
SINAIS
E SINTOMAS
A grande maioria
dos cirróticos portadores de encefalopatia hepática não apresenta
nenhuma queixa. Há apenas uma discreta lentificação e redução da
atenção, que podem ser detectados com exames específicos. Esse é
considerado o estágio subclínico da doença e pode afetar de
1/3 a 2/3 dos cirróticos. A importância desse estágio é controversa,
mas há evidências de que nessa fase há um risco aumentado de
acidentes, especialmente automobilísticos.
Com a progressão
da doença, há graus progressivos de encefalopatia, que pode cursar com
alterações no comportamento (palavras inapropriadas, agitação,
agressividade, comportamento bizarro), mudança no ciclo sono-vigília
(sono de dia, insônia à noite), fala arrastada, sonolência e, por
fim, coma. Geralmente há alguns sinais durante esse processo, como
tremores e um hálito adocicado característico.
|
Estágios
da Encefalopatia Hepática - Critérios de West Haven |
|
Estágio |
Consciência |
Intelecto e
Comportamento |
Achados
Neurológicos |
|
0 |
Normal |
Normal |
Exame normal; testes
psicomotores prejudicados |
|
1 |
Leve perda de
atenção |
Redução na
atenção; adição e subtração prejudicadas |
Tremor ou flapping
leve |
|
2 |
Letárgico |
Desorientado;
comportamento inadequado |
Flapping evidente;
fala arrastada |
|
3 |
Sonolento mas
responsivo |
Desorientação
severa; comportamento bizarro |
Rigidez muscular e
clonus; hiperreflexia |
|
4 |
Coma |
Coma |
Postura de
descerebração |
A encefalopatia
hepática, no entanto, não costuma aparecer na forma de uma piora
progressiva, contínua e irreversível. Ela pode aparecer subitamente na
hepatite fulminante (com melhora completa se houver cura) ou com
períodos de melhora e piora, característicos na cirrose. No
cirrótico, a encefalopatia vai se manifestar como surtos de piora
quando houver uma causa desencadeante e melhorar quando essa causa
passar ou for tratada.
|
Fatores
Precipitantes na Encefalopatia Hepática |
|
Anemia |
Infecção (urinárias, peritonite, etc) |
|
Azotemia / uremia |
Medicações (narcóticos, sedativos, etc) |
|
Constipação |
Oclusão vascular |
|
Desidratação |
Hipocalemia e alcalose metabólica |
|
Hepatocarcinoma |
Excesso de proteínas na dieta |
|
Hipoglicemia |
Hemorragia gastrointestinal |
|
Hipotireoidismo |
Hipóxia |
DIAGNÓSTICO
Não há um
exame específico para diagnosticar a encefalopatia hepática. Mesmo
a dosagem de amônia (preferencialmente no sangue arterial) não é
eficaz, porque o seu aumento não está necessariamente ligado ao grau
de encefalopatia e ela já está aumentada na maioria dos cirróticos.
Assim, o diagnóstico é feito clinicamente (alterações neurológicas
compatíveis na presença de doença hepática) e com a exclusão de
outras doenças (tabela abaixo).
|
Diagnóstico
Diferencial da Encefalopatia Hepática |
|
Metabólicas |
Tóxicas |
SNC |
|
Hipo ou
hiperglicemia |
Intoxicação
alcoólica |
Acidente vascular
cerebral |
|
Hipo ou
hipercalcemia |
Abstinência
alcoólica |
Meningite e abscesso |
|
Hipocalemia |
Narcose por CO |
Encefalite |
|
Hipóxia |
Drogas ilícitas |
Trauma |
|
Uremia |
Medicações |
Tumor |
Tão importante
quanto excluir outras doenças que possam levar às alterações
neurológicas é investigar possíveis fatores
desencadeantes para o surgimento ou piora da encefalopatia
hepática. Apesar das conseqüências da encefalopatia em si, alguns
fatores desencadeantes são mais graves e, se não tratados
precocemente, podem levar ao óbito ou se tornarem irreversíveis.
A avaliação do
estágio da encefalopatia também é importante para avaliar a gravidade
e a resposta ao tratamento. Apesar da escala
de West Haven permitir uma boa avaliação dos estágios
iniciais, os mais avançados ( especialmente na hepatite fulminante )
são melhor definidos pela Escala de Coma de Glasgow (soma-se os
pontos de cada categoria e considera-se encefalopatia severa abaixo de
12).
|
Escala de
Coma de Glasgow |
|
Abertura ocular |
Melhor resposta
motora |
Melhor resposta
verbal |
|
Espontânea |
4 |
Obedece comandos |
6 |
Orientado |
5 |
|
Ao comando verbal |
3 |
Localiza dor |
5 |
Confuso |
4 |
|
À dor |
2 |
Retirada à dor |
4 |
Palavras
inapropriadas |
3 |
|
Ausência |
1 |
Flexão à dor |
3 |
Sons
incompreensíveis |
2 |
|
|
|
Extensão à dor |
2 |
Ausência |
1 |
|
|
|
Ausência |
1 |
|
|
TRATAMENTO
Os objetivos do
tratamento do portador de encefalopatia hepática são:
-
identificação e
remoção (ou tratamento) dos fatores
precipitantes;
-
redução do
nitrogênio intestinal, através de catárticos ou de
dissacarídeos e/ou antibióticos;
-
avaliação da necessidade
de terapia a longo prazo, ou seja, medidas para prevenção de
fatores precipitantes (dieta; profilaxia para sangramento de varizes
esofágicas; profilaxia para peritonite bacteriana espontânea;
uso correto de diuréticos; evitar drogas vasoativas), tratamento
profilático em indivíduos de maior risco (como os submetidos
a TIPS) e avaliação da
indicação de transplante hepático.
As opções
atuais de tratamento são:
-
terapia nutricional:
pacientes cirróticos devem ter uma dieta limitada em proteínas (geralmente 1,2 g/k/dia); o recomendado é iniciar com uma
quantidade pequena e aumentar lentamente até a dose máxima, mas
nunca deixar o paciente se proteína por vários, pois isso
desencadeará um processo catabólico levando à desnutrição e
piora da encefalopatia; recomenda-se o uso de vegetais e lacitínios
para isso; há evidência de que a complementação de zinco seja
benéfica, especialmente em cirróticos desnutridos;
-
redução do
nitrogênio intestinal: a lavagem intestinal é um modo simples,
barato, fácil e efetivo; a lactulona teoricamente funcionaria
melhor, mas não há confirmação científica de que seja melhor
que o uso de placebos; antibióticos podem ser utilizados por curtos
períodos, especialmente a neomicina (1 a 2 g/dia) e o
metronidazol (250 mg 2x/dia), mas com cuidados pela toxicidade
renal e neurológica, respectivamente, além da neomicina poder
causar atrofia de mucosa no intestino delgado;
-
drogas que afetam a
neurotransmissão, como o flumazenil e a bromocriptina, podem
oferecer uma melhora significativa em alguns pacientes, mas por um
período muito curto;
-
manipulação da
circulação esplâncnica: em paciente com encefalopatia
recorrente sem uma função hepática tão ruim ou fatores
precipitantes, deve ser investigada a presença de shunts
porto-sistêmicos - em alguns casos, esse shunts podem ser ocluídos
por procedimentos radiológicos;
PROGNÓSTICO
Mesmo que a
maioria das encefalopatias seja reversível pelo tratamento, o
desenvolvimento dela significa uma doença hepática mais severa. Após
um episódio de encefalopatia hepática, em 1 ano sem transplante, a
sobrevida média é de apenas 40%. E, tanta na encefalopatia aguda
quanto na crônica, chegar ao estágio 4 de West
Haven leva a uma mortalidade de 80%.

Artigo criado em: 04/09/05
Última revisão: 04/09/05
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