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Colangite
Esclerosante Primária
Dr.
Stéfano Gonçalves Jorge
INTRODUÇÃO
A colangite
esclerosante primária (CEP) é uma doença relativamente rara,
acometendo cerca de 10 a 40 pessoas em um milhão. Aparece preferencialmente em
homens (2:1) com idade média de 43 anos, mas podendo surgir em qualquer idade,
incluindo em crianças. É uma doença grave, com tempo médio entre o
diagnóstico e o óbito ou necessidade de transplante hepático de 18 anos.
Por um processo
ainda desconhecido, ocorre inflamação dos canais de bile,
tanto dentro quanto fora do fígado. Com o tempo, esta inflamação leva à
formação de cicatrizes, obstruindo os canais. O acúmulo de bile no fígado
leva a cirrose e hipertensão portal muito mais
rápido que as hepatites, dependendo do grau de estreitamento. Além disso, o
risco de câncer das vias biliares é muito
mais alto do que na população geral, chegando ao risco de 1% ao ano.
FISIOPATOGENIA
A fisiopatogenia
da CEP ainda permanece desconhecida. Há evidências suficientes de que é uma
doença causada pelo sistema imune, provavelmente por um processo de auto-imunidade, com formação de auto-anticorpos contra epitetos comuns tanto
à célula do epitélio biliar quanto à do cólon (pela associação entre a
CEP e a doença inflamatória intestinal, tanto a RCU quanto a doença de
Crohn). Outro fator que sugere a presença de autoimunidade é a associação
com outras doenças autoimunes, como a uveíte, e a presença de auto-anticorpos. Propõe-se ainda que exista
alguma correlação entre substâncias absorvidas pela mucosa intestinal
danificada e a lesão do epitélio biliar.
Essa lesão,
cronicamente, leva à formação de cicatrizes na árvore biliar, com formação
de estreitamentos mais ou menos intensos. Estreitamentos mais intensos
("estenoses dominantes") reduzem o fluxo de bile, levando ao seu
acúmulo (colestase). A colestase, em si, é um fator adicional que leva
a maior inflamação crônica das vias biliares (que aumentam o risco a longo
prazo de colangiocarcinoma) e do fígado,
que ao longo dos anos de inflamação e cicatrizações chega ao estágio de cirrose.
Além disso, podem ocorrer episódios de infecção da bile (colangite),
que pode ser grave se ão tratada adequadamente.
A CEP deve ser
diferenciada da colangite esclerosante secundária, onde a lesão das
vias biliares ocorre por um processo patológico ou agressão conhecida, como:
obstrução mecânica pós-cirúrgica, tumores dos ductos extra-hepáticos,
coledocolitíase, isquemia por oclusão da artéria hepática, quimioterápicos
(como a floxuridina para câncer de cólon metastático), antibióticos ou
doenças congênitas, como fibrose cística. A CES geralmente é mais agressiva
que a CEP e não será abordada aqui.
SINTOMAS
Os sintomas no
início da doença variam muito. Como cerca de 70% dos portadores de CEP
apresentam também retocolite ulcerativa (e uma pequena porcentagem apresenta doença de Crohn), os sintomas iniciais costumam ser os de colite: diarréia, dores abdominais,
perda de peso, sangue ou muco nas fezes. Mesmo assim, os sintomas de colite
podem aparecer depois da CEP e mesmo pacientes com colite onde foi retirado o
cólon com cura da doença podem vir a apresentar CEP (reafirmando a hipótese
de transtorno de imunidade). É estimado que cerca de 2,4 a 4% dos portadores de
colite ulcerativa desenvolverão CEP.
| Sinais e
sintomas no início da colangite esclerosante primária |
%
|
|
Sintomas
|
fadiga
|
75
|
|
prurido (coceira)
|
60
|
|
febre
|
20
|
|
colangite (dor + icterícia + febre)
|
10
|
|
sem sintomas
|
25
|
|
Sinais
|
aumento do fígado
|
50
|
|
aumento do baço
|
30
|
|
hiperpigmentação da pele
|
25
|
|
xantomas
|
5
|
Mais recentemente,
no entanto, a maioria dos diagnósticos de CEP ocorre em pacientes sem sintomas
ou com sintomas leves e incaracterísticos, que descobriram alterações em exames
laboratoriais de rotina, especialmente elevação de fosfatase alcalina.
Como são pacientes geralmente com doença inicial, o diagnóstico é mais
difícil, podendo ser confirmado apenas após anos de acompanhamento.
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico da
CEP normalmente é feito por colangiografia (endoscópica, transparietal ou por ressonância nuclear magnética, apesar da
endoscópica ser a preferida). A biópsia
hepática é importante no diagnóstico e para avaliar o grau da
doença. Exames
laboratoriais costumam mostrar aumento da fosfatase alcalina e as
transminases quase sempre estão elevadas até 3 a 5 vezes o limite normal. As
bilirrubinas podem se elevar à medida que a doença progride. Não há
autoanticorpo característico, apesar do p-ANCA (anticorpo anticitoplasma de
neutrófilos, padrão perinuclear) e ANA serem comuns (o p-ANCA está presente
em 33 a 88% dos portadores de CEP).

|
Colangiografia na CEP |
|
Métodos |
endoscópica (CPRE)
|
desconfortável ao paciente, mas com bons resultados
|
|
transparietal
|
invasivo, com risco de complicações e baixa eficácia
na CEP
|
|
ressonância nuclear magnética
|
não invasivo e seguro, mas muito caro e disponível em
poucos lugares, não permite dilatação ou retirada de material para
análise
|
|
Achados típicos |
estreitamento e irregularidade em vários
pontos da via biliar (dentro e fora do fígado), com aspecto de
"colar de contas"
|
|
dilatação proeminente, massa polipóide e
estreitamento progressivo sugerem colangiocarcinoma
|
Apesar de
invasiva, a biópsia hepática
pode ser útil no diagnóstico e no prognóstico (avaliação do grau e previsão de
complicações). Infelizmente, o grau da doença pode variar bastante em locais
diferentes do fígado, prejudicando a eficácia do exame. Em pacientes com
diagnóstico bem estabelecido da CEP, por exames laboratoriais e colangiografia,
no entanto, a necessidade de realização da biópsia hepática vem sendo
rediscutida.
|
Biópsia
hepática na CEP
|
|
Achados
|
ausência de ductos biliares em alguns espaços portais
(ductopenia)
|
|
proliferação de ductos em outros espaços-porta
|
|
colangite fibrosante com obliteração de ductos (quase patognomônico, mas raro)
|
Nos
pacientes com doença em fase inicial, no entanto, as alterações histológicas
geralmente são pouco características, a colangiografia freqüentemente é
normal e os auto-anticorpos podem não ser encontrados. A falta de um exame
suficientemente sensível e específico nessa fase pode prejudicar a
realização do diagnóstico correto.
Um
subgrupo de portadores de CEP apresenta a chamada "colangite esclerosante
primária de pequenos ductos", uma condição onde há alterações
laboratoriais e histológicas típicas, mas não observam-se lesões na
colangiografia. Esses pacientes tem características semelhantes em termos de
auto-anticorpos e associação com doença inflamatória intestinal, mas
aparentemente têm uma doença de evolução mais benigna.
COMPLICAÇÕES
As complicações mais freqüentes
durante a evolução da doença são as relacionadas:
-
ao avanço da cirrose, como
sangramento de varizes, ascite,
encefalopatia e insuficiência hepática;
-
à colestase (redução no
fluxo de bile), como osteopenia (decalcificação dos ossos) e
deficiência de vitaminas solúveis em gordura (A,D, E e K);
-
colangite (infecção das vias
biliares), que pode ser grave mas tratada com facilidade se descoberta no
início;
-
estreitamento das vias biliares,
que podem levar a piora rápida do fígado e exigir a realização de
colangiografia endoscópica retrógrada (CPRE), com dilatação da área
estreitada e biópsia da mesma, algumas vezes com colocação de prótese
para manter a área desobstruída;
-
cálculos (pedras) nas vias
biliares ocorrem em 25% dos portadores de CEP e podem precipitar piora,
necessitando também de CPRE para sua retirada;
-
o colangiocarcinoma pode surgir em
10-15% dos portadores, normalmente naqueles com quadro mais grave, devendo
ser diagnosticado em sua fase inicial para melhor resposta ao tratamento.
TRATAMENTO
O ácido
ursodeoxicólico - UDCA (ursacol ®) é um variante de sais
biliares que tem a característica de ser mais hidrofílico (mais
solúvel em água) que a maioria dos sais biliares normalmente
presentes na bile. Quando administrado em doses terapêuticas (13 a 15
mg/kg/dia), passa a constituir cerca de 40% do pool de ácidos
biliares na bile, que torna-se menos detergente e tóxica. Além disso,
parece ter efeito mudando aspectos de imunidade nos hepatócitos e
canais biliares, estimulando a secreção hepatobiliar (reduzindo a colestase) e tem uma ação anti-apoptótica de mecanismo ainda não
adequadamente esclarecido. Seu uso tem sido intensamente investigado na CEP. Há evidências
significativas, porém não em todos os estudos, de melhora nos sintomas,
achados histológicos (biópsia), exames laboratorias e na colangiografia. A
dose utilizada na maioria dos estudos é de 10-15 mg/kg/dia dividida em 3 ou 4
vezes ao dia. Alguns estudos sugerem doses maiores, de 20-30 mg/kg/dia. Outros
medicamentos, como imunossupressores, colchicina e a d-penicilamina não se mostraram eficazes.
A associação do imunossupressor micofenolato mofetil (cellcept ®) com o UDCA
também não mostrou vantagens.
Apesar da atividade da retocolite
ulcerativa estar geralmente correlacionada ao aumento de enzimas hepáticas, o
tratamento mais agressivo da primeira não se mostrou suficiente para evitar a
progressão da CEP.
O tratamento endoscópico, com
dilatação das áreas mais estreitadas (estenoses dominantes), com balão ou
prótese (stent) tem sido estudado em pacientes com episódios
recorrentes de piora clínica (com icterícia e prurido) como uma forma de
reduzir a colestase e a colangite, uma vez que estes pacientes tem
caracteristicamente as chamadas estenoses dominantes. No entanto, é um
procedimento caro, invasivo e os benefícios não foram observados em todos os
estudos. Estudo mais recente sugere que a associação entre a dilatação
endoscópica e o ácido
ursodeoxicólico pode ser benéfica,
O transplante
hepático é reservado aos pacientes com cirrose avançada e é bem sucedido na
maioria desses pacientes. No entanto, a doença volta em cerca de 20% dos transplantados,
algumas vezes com necessidade de novo transplante. A atividade da retocolite
ulcerativa após o transplante é altamente variável, com paciente apresentando
remissão completa da doença e outros com aumento da sua atividade. Como a retocolite ulcerativa aumenta o risco
de câncer do intestino grosso, a supressão do sistema imunológico necessária
no transplante aumenta o risco do câncer, sendo necessário o rastreamento
rigoroso desta complicação.
|
Indicações
de transplante hepático na CEP |
|
Cirrose
complicada por:
|
|
Fadiga ou
prurido intratáveis |
|
Colangite
recorrente |
|
Icterícia sem
resposta ao tratamento endoscópico ou medicamentoso |
|
Carcinoma
hepatocelular |
|
Displasia
biliar ou colangiocarcinoma in situ |
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Artigo criado em: 11/04/04
Última revisão: 22/01/07
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