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Colangiocarcinomas
Luis Sérgio
Leonardi e Miki Mochizuki
INTRODUÇÃO
Os
colangiocarcinomas ou carcinomas de vias biliares são conhecidos há mais de um
século, tendo sido descrito por Musser em 1889, que descreveu 18 casos de
câncer das vias biliares extra-hepáticas. Em 1936, Stewart e colaboradores
publicaram uma revisão de 306 casos de tumores primários das vias biliares
extra-hepáticas descritos na literatura mundial. Já os tumores de vias
biliares intra-hepáticas e peri-hilares foram descritos mais recentemente,
tendo Altemeier e colaboradores descrito três casos de adenocarcinomas
primários dos ductos biliares intra-hepáticos em 1957, e em 1965, Klatskin
descreveu 13 casos de pacientes que apresentavam câncer na confluência dos
ductos hepáticos, estimulando o interesse por esses tumores incomuns, que após
essa publicação passaram a ser denominados tumores de Klatskin. Desde então
os colangiocarcinomas têm sido motivo de preocupação aos cirurgiões.
Epidemiologia
Dada a origem
embrionária da via biliar, que se diferenciam das células hepáticas, os
carcinomas de vias biliares são classificados entre os tumores primários do
fígado, correspondendo de 5 a 30% dos carcinomas de fígado19.
Nos EUA, surgem
aproximadamente 15.000 novos casos de cânceres do fígado a cada ano, sendo que
15 a 25% destes são carcinomas de vias biliares. Como um todo, a incidência de
colangiocarcinoma nos EUA é de cerca de 1,0 para cada 100.000 pessoas por ano,
sendo de 7,3 para cada 100.000 pessoas por ano em Israel e de 5,5 para cada
100.000 pessoas por ano no Japão. A incidência de colangiocarcinoma em uma
série de autópsias varia de 0,01% a 0,46%86.
A idade dos
pacientes ao diagnóstico de colangiocarcinoma varia de 60 a 65 anos, com cerca
de dois terços dos pacientes com a idade entre 50 e 70 anos. É observada um
discreto predomínio de homens do que de mulheres, com uma relação de 1,3:1,0.
Apesar de serem tumores raros, esta possibilidade diagnóstica deve ser aventada
em todo caso de icterícia obstrutiva.
Apresentação Clínica
A icterícia é
a apresentação clínica mais freqüente nos colangiocarcinomas, estando
presente em mais de 90% dos pacientes. Outros sintomas menos freqüentemente
observados são: prurido, dor abdominal, perda de peso. A colangite não é um
quadro comumente visto na apresentação inicial da doença, sendo mais o
resultado da manipulação das vias biliares por técnicas endoscópicas ou
percutâneas. Achados além da icterícia, ao exame físico são incomuns. A
vesícula biliar pode ser palpável nas lesões distais ao ducto cístico,
quando a obstrução é completa. A presença de ascite e esplenomegalia
significa invasão da veia porta e implica em um mau prognóstico.
Nos pacientes em
que o tumor está localizado acima da confluência dos ductos biliares
hepáticos, pode haver obstrução de apenas um dos ductos biliares, direito ou
esquerdo, causando dor abdominal discreta, aumento unilobular do fígado e
elevação dos níveis das enzimas canaliculares, sem que haja elevação dos
níveis de bilirrubinas e icterícia.
Os
colangiocarcinomas que acometem as vias biliares superiores foram estudados e
classificados Bismuth e Corlette, em 1975.

Tipo I: tumor abaixo da confluência
com livre fluxo entre os canais esquerdo e direito;
Tipo II: tumor obstruindo a
confluência, não havendo acometimento superior dos ramos principais;
Tipo IIIa: tumor obstruindo a
confluência e o ramo principal direita;
Tipo IIIb: tumor obstruindo a
confluência e o ramo principal esquerdo;
Tipo IV: acometimento de ambos os
ramos principais e os secundários.
Patologia
Ao exame
anatomopatológico mais de 95% dos carcinomas de vias biliares são
adenocarcinomas. Os outros 5% abrangem um grande número de tumores que vêm
sendo descritos, como carcinomas escamosos, leiomiossarcomas, tumores
mucoepidermóides, tumores carcinóides, cistoadenocarcinomas, rabdomiossarcomas
e carcinomas de células granulares 68,21,38,34.24,.
Macroscopicamente as lesões podem ser classificadas de três maneiras
distintas: nodular, papilar e difusa, sendo que esta última está associada,
com freqüência, à retocolite ulcerativa e à colangite
esclerosante. A forma
nodular, mais freqüentemente encontrada, tem crescimento parietal e é a que
produz maior reação desmoblástica, devendo ser a sua ressecção estimulada,
não só pela característica de crescimento local, mas porque o envolvimento
macroscópico não significa necessariamente neoplasia e sim reação fibrosa
peritumoral.83
A localização
mais comum dos tumores de vias biliares, são: 1. ducto biliar comum (33-40%);
2. ducto hepático comum (30-32%); 3. confluência dos ductos biliares
hepáticos e 4. ducto cístico. Os tumores difusos ou aqueles que não puderam
ser classificados anatomicamente corresponderam a 5-7% do total.14.72 Outra
forma de classificação dos tumores de vias biliares é os dividir em tumores
de vias biliares superiores (55%), médias (15%) e inferiores (20%). O terço
superior inclui os carcinomas entre a superfície inferior do fígado e o ducto
cístico. O terço médio incluem as lesões entre o ducto cístico e a borda
superior do pâncreas. O terço inferior envolve as lesões localizadas entre a
borda superior do pâncreas e a ampola.
Os resultados de
autópsias feitas em pacientes com diagnóstico de colangiocarcinoma, indicaram
a presença de metástases em 75 a 80% dos pacientes. Aproximadamente metade dos
pacientes apresentavam metástases ganglionar regional, sendo as metástases
hepáticas e peritoneais igualmente comuns. Metástases pulmonares estavam
presentes em 10 a 15% dos casos; as metástases ósseas, em 10% e as metástases
para rins e sistema nervoso central em 2 a 3% dos casos 86.
Um estudo
realizado por Kurosaki e cols.40 sobre o acometimento linfático de
80 casos de colangiocarcinoma mostrou uma diferença do acometimento dos
linfonodos de acordo com a topografia do tumor, como mostra o gráfico abaixo:
Quanto ao modo
de disseminação, esse mesmo autor constatou que no grupo dos carcinomas de
vias biliares de 1/3 proximal as metástases linfonodais ao longo da artéria
hepática predominam sobre as metástases retropancreáticas. No grupo de
tumores de 1/3 médio, as metástases linfonodais se distribuem de forma mais
difusa, acometendo nódulos próximos à artéria mesentérica superior ou da
região para-aórtica. Já nos tumores de 1/3 distal as metástases linfonodais
encontram-se predominantemente ao redor da cabeça do pâncreas.
Etiologia
Os
colangiocarcinomas têm sido relacionados a uma série de fatores etiológicos.
Parece haver uma forte relação dos colangiocarcinomas com colelitíase (hepatolitíase),
colangite esclerosante, colite ulcerativa (exceto a doença de Crohn), anomalias
císticas do ducto biliar, Thorotrast (dióxido de Tório, usado como
radiocontraste) e à infestação por Clonorchis sinensis. Em Hong-Kong,
a infestação pelo Clonorchis sinensis ocorre em 90% dos casos de
colangiocarcinomas 3.
A colelitíase
é observada em mais de 1/3 dos pacientes com colangiocarcinomas, mas esse
achado não é muito diferente do que se espera encontrar em populações
idosas. Embora exista a observação da associação de colecistolitíase com os
colangiocarcinomas não há uma relação causa-efeito bem estabelecida.
Entretanto, contrariamente, a hepatolitíase é considerada um fator de risco
bem definido para o desenvolvimento de colangiocarcinoma, acometendo cerca de 4
a 7% dos pacientes com hepatolitíase30. Essa associação é
creditada a vários fatores como irritação crônica pelos cálculos
intra-hepáticos, estase biliar e infecção bacteriana 69. Nakamura
postulou que a colangite proliferativa crônica observada em pacientes com
hepatolitíase pode evoluir para hiperplasias epiteliais atípicas e
possivelmente para o colangiocarcinoma.54
Há uma forte
associação entre colangite esclerosante e colite ulcerativa, de forma que de
60 a 80% de todos os pacientes com colangite esclerosante apresentam também
colite ulcerativa. Fatores auto-imunes parecem estar implicados na patogênese
dessas doenças, sendo encontrada uma reação cruzada de anticorpos contra
ductos biliares em 60% dos pacientes que apresentam colangite esclerosante e
colite ulcerativa. Achados de autópsias em pacientes com colangite esclerosante
mostraram a presença de colangiocarcinomas não previamente diagnosticados em
cerca de 40% dos casos. O mesmo achado ocorreu nos fígados de pacientes que
foram submetidos a transplante hepático por essa doença.
Outras
possíveis associações que vêm sendo descritas são o uso de pílulas
anticoncepcionais, metildopa, isoniazida, bifenil policlorados e asbestos86,
além das dioxinas, conhecidas como "agente laranja", que acabou
contaminado várias pessoas numa explosão de uma fábrica na Itália.73
Um trabalho feito no Egito23 sugere também que os portadores de tifo
fecal apresentem um maior risco para o desenvolvimento do colangiocarcinoma.
Todas essas associações, entretanto, ainda não explicam a gênese dos
colangiocarcinomas.
Tabela 1: Associações com
colangiocarcinomas:
|
Fortemente associados |
Possivelmente associados |
|
Doença de Caroli |
Asbestos |
|
Cistos coledocianos |
Isoniazida |
|
Clonorchis sinensis |
Metildopa |
|
Colangite esclerosante |
Anticoncepcionais orais |
|
Colelitíase |
Bifenil policlorados |
|
Thorotrast |
Nitrosamidas |
|
Colite ulcerativa |
Dioxinas (agente laranja) |
|
Opisthorchis viverrini |
|
Alguns estudos
têm identificado mutações nos oncogenes k-ras em 60 a 70% dos casos de cânceres
das vias biliares intra-hepáticas e peri-hilares.76,42,77 Outros
identificaram anormalidades nos cromossomos 5 e 17,20 a presença de
C-erb oncogenes,15 fatores de crescimento epidermal47 e
antígenos de proliferação nuclear (PCNA).86
Diagnóstico
O diagnóstico
de icterícia obstrutiva é levantado pelos achados do exame físico e pelos
exames de rotina para avaliação do perfil hepático (FALC, g -GT, AST, ALT e
bilirrubinas). Os níveis de antígeno cárcino-embrionário (CEA) estão
geralmente elevados nos casos de colangiocarcinoma53. Além do CEA,
muitos tumores também cursam com elevação de CA50 e CA19-9 84,30.
Os estudos
iniciais por métodos de imagem envolvem o uso de ultra-sonografia abdominal e
tomografia computadorizada, que podem demonstrar dilatação das vias biliares e
a presença de cálculos; no entanto, não ajudam muito no delineamento do
envolvimento proximal do tumor.27
Após ser
firmado o diagnóstico de dilatação das vias biliares intra-hepáticas pela
ultra-sonografia e pela tomografia computadorizada, a clara visibilização dos
ductos biliares é fundamental para se determinar a localização da obstrução
e a extensão do envolvimento dos ductos biliares de 1a e 2a
ordem. 8,36 Para isso utiliza-se a colangiografia que pode ser
transparieto-hepática (CTP) ou endoscópica (CPRE). A CTP é preferida por
definir a melhor a extensão do envolvimento proximal do tumor ao nível do hilo
hepático e por representar um risco menor para a contaminação da árvore
biliar. Hoje, entretanto, a colangio-ressonância parece ser a melhor opção
para o diagnóstico dessas lesões. A angiografia ou a angio-ressonância podem
ser utilizadas para delinear o crescimento do tumor para dentro de um vaso
principal, geralmente a veia porta.
O diagnóstico
histológico pré-operatório não costuma ser feito, deixando-se para os casos
em que não há proposta cirúrgica. Os métodos utilizados para a realização
de biópsia incluem:
-
Biópsia de aspiração percutânea com agulha fina;
-
Escovado por catéteres transhepáticos;
-
Citologia da bile obtida por punção percutânea ou endoscópica.
A confirmação
da malignidade através da citologia aspirativa da bile no pré-operatório pode
oferecer elevado nível de positividade, ainda maior se realizada no
intraoperatório 6.
Estadiamento
O estadiamento
dos pacientes com colangiocarcinomas é usualmente feito com o uso de tomografia
computadorizada ou de ressonância nuclear magnética, que permitem a
avaliação do acometimento radial das lesões tumorais; da colangiografia, que
permite avaliar o nível proximal de acometimento; e da angiografia visceral,
que permite avaliar a existência de invasão vascular, principalmente da veia
porta. O estadiamento é descrito utilizando-se a classificação TNM:
Tabela 2: Classificação TNM para
colangiocarcinomas:
|
Estadio |
T |
N |
M |
|
I |
T1 |
N0 |
M0 |
|
II |
T2 |
N0 |
M0 |
|
III |
T1-T2 |
N1 |
M0 |
|
IVA |
T3 |
N0-N1 |
M0 |
|
IVB |
T1-T3 |
N0-N1 |
M1 |
T1 - Tumor limitado à camada mucosa ou muscular
T2 - Tumor invadindo tecido periductal
T3 - Tumor invadindo estruturas adjacentes
N0 - Sem envolvimento ganglionar
N1 - Acometimento de linfonodos regionais
M0 - Sem metástases à distância
M1 - Metástases à distância
O achado de
metástases hepáticas bilobares ou em outros órgãos afastam a possibilidade
de um ressecção curativa. Contra-indicam uma ressecção cirúrgica achados,
ao estadiamento, como:
-
lesões bilobares
extensas do parênquima hepático;
-
acometimento da artéria
hepática comum;
-
acometimento da veia
porta;
Um trabalho
feito pela Johns Hopkins22 comparou o emprego da colangiografia e da
angiografia para determinar a ressecabilidade de colangiocarcinomas peri-hilares
em 97 pacientes, comparando os resultados com o achado intra-operatório para
investigar a acurácia desses dois métodos diagnósticos. Nesse trabalho, a
angiografia isoladamente pôde determinar a ressecabilidade em 71% dos casos,
enquanto a colangiografia, isoladamente, pôde determinar a ressecabilidade em
cerca de 60% dos casos. A combinação dos dois métodos conseguiu determinar
corretamente a ressecabilidade dos colangiocarcinomas em 79% dos casos.
Tratamento
Basicamente o tratamento tem a finalidade de controlar a
icterícia, o prurido, a sépsis e a insuficiência hepática, quando presentes.
A ressecção cirúrgica curativa é o melhor tratamento,35,59 sendo
que cerca de 75% dos pacientes são considerados operáveis ao estadiamento
pré-operatório inicial 86 e a ressecabilidade chega a 44%.2,9
A conduta terapêutica envolve condições relacionadas tanto às condições do
paciente quanto às condições do tumor.
Alguns fatores
têm sido responsabilizados como índices preditivos de sobrevida:
concentração de bilirrubina, nível de fosfatase alcalina, icterícia pré
operatória, dor abdominal, estadio do tumor, comprometimento linfonodal e
margens cirúrgicas livres 41. Para outros as margens cirúrgicas
livres de neoplasia o estado nutricional e ausência de infecção tem
participação importante na sobrevida 51. Outro fator que também
pode ser considerado é a invasão de fibras nervosas pelo tumor: A sobrevida em
cinco anos nos casos de invasão é de 32% enquanto nos casos sem invasão a
sobrevida é de 67% 50.
A menos que a
avaliação pré operatória revele condições clínicas gerais ou
disseminação da neoplasia que contra indiquem a cirurgia, a laparotomia deve
ser sempre indicada. Esta conduta se prende ao fato de que o diagnóstico
estabelecido no pré operatório pode não ser confirmado durante a laparotomia
como também dada a possibilidade tática da execução de cirurgia paliativa
nos casos avançados em que a cirurgia curativa inicialmente prevista está
contra-indicada devido a sua disseminação loco regional. Portanto, o
cirurgião deve antes de mais nada, estadiar o tumor realizando biópsias de
congelação dos linfonodos regionais, avaliar o grau de invasão da neoplasia
no parênquima hepático a fim de estimar a extensão da ressecção a ser
praticada. A biópsia da neoplasia deve ser realizada de modo a prevenir a
eventual disseminação das células neoplásicas nos casos em que a mesma
estava bem delimitada.
Tratamentos Paliativos
Paliação não-cirúrgica
Tendo em vista
as dificuldades para a cirurgia definitiva e também ao crescimento relativo
lento dos tumores, os procedimentos paliativos têm sido empregados no
tratamento dos tumores que envolvem o hilo hepático 26,28, embora
com resultados não satisfatórios 39. Apesar de alguns autores terem
observado bons resultados com a cirurgia de ressecção 41,48 o
tratamento cirúrgico definitivo só pode ser praticado em menos de 20% de
pacientes portadores de lesões bem localizadas 28,37
A opção por
uma conduta paliativa não cirúrgica deve ser feita nos casos em que as
condições clínicas do paciente representam uma relação muito elevada do
risco em relação ao benefício, contra-indicando uma abordagem cirúrgica, ou
naqueles casos em que o estadiamento pré-operatório diagnostica uma lesão
irressecável. Como uma obstrução biliar prolongada pode resultar em
disfunção hepatocelular, desnutrição progressiva, coagulopatia, prurido
intenso, disfunção renal, além de colangite, a paliação deve ser indicada.
As abordagens possíveis são:
-
via endoscópica:
-
ERCP:
-
com canulação da via
biliar;
-
com dilatação com uso
de balão;
-
com dilatadores faseados;
-
com colocação de
endopróteses;
-
via percutânea:
-
Drenagem transparieto-hepática com catéteres.
Os tumores de
localização hilar não são franqueados facilmente por via endoscópica, que
também predispõe a colangites de repetição, tornando o método percutâneo o
preferido, utilizando-se stent metálico expansível.
Se a drenagem
percutânea oferece resultados superiores a derivação cirúrgica, permanece
questão aberta a investigação 81. A entubação por qualquer das
vias supra mencionadas acarretam mortalidade de 14 a 25% e sobrevida de 3 a 6
meses 65, preferindo-se a via percutânea por ser tecnicamente de
mais fácil execução e provocar menor incidência de colangite. A
substituição da drenagem biliar externa pela drenagem interna atualmente
apresenta resultados encorajadores 65,87 com o emprego de próteses
biliares metálicas introduzidas por endoscopia ou pela via percutânea
trans-hepática. Todavia, parece que o emprego de "stents" ficaria
reservado aos pacientes com sobrevida inferior a 6 meses.
Paliação cirúrgica
Cerca de 50% dos
pacientes que são submetidos a uma exploração cirúrgica por tumores de vias
biliares apresentam tumores intraperitoneais disseminados ou acometendo a veia
porta, contra-indicando um procedimento mais extenso. Nesses casos deve-se
proceder uma colecistectomia para prevenir a possível ocorrência de uma
colecistite aguda futura por obstrução do ducto cístico. As cirúrgicas
paliativas, com o intuito de derivar a via biliar comumente utilizadas são
definidas de acordo com o segmento acometido.
Quando há
acometimento do 1/3 distal da via biliar pode-se realizar uma derivação
bíleo-digestiva em Y-de-Roux. Nos casos em que a ressecção do tumor é
impraticável, a derivação bileodigestiva está indicada, sendo praticada no
ducto do segmento III 75. A anastomose é realizada utilizando-se a
porção extra hepática do ducto esquerdo, realizando-se a derivação do
segmento III. Este procedimento é contra-indicado na presença de atrofia do
lobo E, metástases no lobo E ou envolvimento dos ductos de 2ª ordem do lobo E.
Nestes casos, a anastomose colangioentérica ao nível do segmento V é
indicada. A drenagem unilateral é satisfatória quando o lobo contralateral
não é infectado. A mortalidade com a derivação bileodigestiva é semelhante
aos procedimentos endoscópicos ou percutâneos até o 30º dia 1 no
colangiocarcinoma hilar; no entanto a sobrevida com a derivação do segmento
III é maior 11.
Paliação da dor
Com o intuito de
paliar os quadros álgicos que podem surgir nos casos de tumores irressecáveis
das vias biliares, pode-se realizar uma alcoolização esplâncnica com álcool
a 50% durante a cirurgia com o objetivo de melhorar o controle álgico no
pós-operatório e reduzir a necessidade de narcóticos.43
Tratamento Cirúrgico
A ressecção do
tumor é o objetivo sempre desejado, naturalmente associado ao restabelecimento
do fluxo biliar. Deste modo pode-se praticar ressecção local acompanhado ou
não de ressecção hepática e mesmo o transplante hepático.
Para os tumores
tipo I e II (Bismuth e Corlette) a ressecção local tem sido amplamente
realizado com índices de mortalidade de 5% 2,16,25,51,63. Por outro
lado, nos casos em que existe invasão unilobular ou de ductos de 3ª ordem
tumor tipo IV 7, a ressecção local se associa a hepatectomia, o que
determina aumento da morbi-mortalidade 4,13,81, embora a sobrevida
permaneça inalterada 81; esta verificação recomenda a ressecção
hepática para os pacientes de bom prognóstico. Nos casos de ressecção
hepática em pacientes portadores de icterícia, a isquemia do órgão
(exclusão vascular) é contra-indicada porque o fígado nestas condições
tolera mal ao clampeamento vascular 10.
Assim, enquanto
alguns autores 8,16 manifestam pessimismo frente aos resultados da
ressecção local associada a hepatectomia outros tem opinião oposta ao referir
resultados animadores 51.
Questão que
ainda é objeto de controvérsias 81 diz respeito a obtenção de
margens cirúrgicas negativas quanto a presença de neoplasia 49
visto que a positividade das mesmas oscila até 89% 62,16,25.
Outro fato que
ainda não merece o consenso entre os autores refere-se a ressecção
sistemática do lobo caudato preconizada por alguns 49,60 e negada
por outros 2,51. Esta conduta se deve ao fato de que o lobo caudato
drena a bile ao nível da confluência dos hepáticos, o que explica a elevada
incidência de invasão neoplásica deste lobo 49,44.
Basicamente a
cirurgia do colangiocarcinoma classifica-se em 3 categorias: tumor
intra-hepático que não envolve os ductos do hilo e são controlados pela
ressecção hepática; tumores perihilar que envolvem a bifurcação dos ductos
e requerem a ressecção ductal associada ou não a ressecção do parênquima e
do lobo caudato; finalmente os tumores distais que respondem melhor a
pancreatoduodenectomia. Em todas é fundamental que as ressecções assegurem
margem cirúrgicas negativas a microscopia.
Tumores de 1/3 proximal
Nos tumores de
1/3 proximal, Bismuth I e II pode-se realizar a ressecção dos ductos
hepáticos direito e esquerdo, ducto hepático comum e colédoco, com a
vesícula, com o máximo de margem possível, restabelecendo a drenagem biliar
com uma anastomose bileodigestiva. Esta anastomose requer uma técnica
meticulosa englobando os ductos biliares proximais, preferencialmente
aproximando-os previamente à execução da anastomose.
Nos casos em que
o colangiocarcinoma se estende para os ductos hepáticos direito (Bismuth IIIa)
ou esquerdo (Bismuth IIIb) deve-se considerar a realização de uma hepatectomia
direita ou esquerda. Nos tumores tipo III a ressecção do parênquima além de
permitir melhor acesso para a anastomose coledocojejunal facilita a toilete
ganglionar 2. A ressecção hepática biliar deve ser reservada para
os casos em que a neoplasia tem envolvimento uni lobar, com bom risco
cirúrgico. A ressecção do parênquima quando indicada deve seguir os
seguintes passos técnicos: incisão do parênquima, ligadura dos ramos da veia
porta e da artéria hepática e por fim secção do ducto biliar para garantir
boa margem de segurança.
O procedimento
cirúrgico standard consiste na hepatectomia, ressecção dos ductos biliares
extra hepática e dissecção do linfonodos regionais. A extensão da
hepatectomia pode ser: hepatectomia direita ou esquerda, hepatectomia ampliada 81,45
além da trissegmentectomia esquerda.
A hepatectomia
direita ampliada inclui o lobo caudato e parte inferior do seguimento medial
esquerdo quando o sítio principal alcança o hepático direito ou o colédoco
proximal alto. A hepatectomia esquerda ampliada inclui ressecção do lobo de
spiegel e da região hilar direita nos casos em que o ducto hepático esquerdo
está predominantemente envolvido. Quando o tumor estende pouco além da
divisão secundária do ducto biliar esquerdo é possível praticar a
trissegmentectomia direita e anastomose do ducto correspondente aos segmentos II
e III 2.
Nos casos em que
a trissegmentectomia direita é realizada, torna-se necessária anastomose no
ducto biliar direito posterior considerada muito difícil e contra-indicada 2.
Alguns ainda preconizam a ressecção segmentar da veia porta com resultados
convincentes 55,56.
Os linfonodos, o
tecido conjuntivo do ligamento hepatoduodenal posterior a cabeça do pâncreas e
junto a artéria hepática são removidos em bloco. As bordas de secção dos
ductos biliares são submetidas a biópsia de congelação a fim de assegurar a
ausência de infiltração neoplásica microscópica. Nos casos de
comprometimento do ducto biliar intra-pancreático, a pancreatoduodenectomia tem
indicação a fim de assegurar a cura 39,50,79,82. A invasão da
vesícula bem como a invasão perineural e dos vasos maiores da região são
fatores que empobrecem o prognóstico da cirurgia.
Embora alguns
autores admitam que a ressecção é raramente praticada79 a maioria
dos autores concordam que realizam certo grau de ressecção hepática por
ocasião da cirurgia dos tumores hilares. 6,16,41,57,58,78,80 A
questão da ressecção hepática se prende a 3 situações especiais:
-
A ressecção rotineira do
segmento I proposta que tem revelado bons resultados segundo autores orientais
57,58,78 baseia-se na evidência da invasão deste segmento pelos
tumores situados na confluência dos ductos hepáticos direito e esquerdo46
nas lesões de estágio I e II. Todavia outros autores não advogam a
ressecção do segmento I sistematicamente 2,51.
-
Nas lesões do estágio III o
setor hepático correspondente precisa ser removido. Assim para os tumores
IIIa realiza-se a hepatectomia direita ou ampliada, enquanto que para o grupo
IIIb as ressecções esquerdas 55.
-
Ressecções adicionais dos
segmentos V, VIII e mesmo de IV parece não ter justificativa quando as
ressecções atingem a extensão de hepatectomia 2.
Nos últimos
anos a literatura internacional tem mostrado uma tendência em se realizar
ressecções mais agressivas, incluindo ressecções hepáticas nos casos de
colangiocarcinomas peri-hilares, mas um trabalho feito por Boerma13
envolvendo uma revisão de 389 casos de colangiocarcinomas submetidos a
ressecção desde 1980, mostrando dados comparando os resultados entre um grupo
de pacientes que foi submetido a uma ressecção hilar e um grupo de pacientes
que foi submetido a uma ressecção hepática extensa, mostrou que a sobrevida
média não foi melhorada por uma ressecção hepática extensa para os
colangiocarcinomas hilares, tendo ademais aumentado a mortalidade operatória,
como mostra o quadro abaixo. Dados similares são mostrados por outros serviços
como o do Hospital de Hamersmith, em Londres29. Apesar desse
pessimismo, a ressecção hepática associada a ressecção hilar tem sido
recomendada por outros autores2,18,48,56,52 frente a resultados de
sobrevida mais animadores comparativamente a ressecção hilar isolada.
Para os tumores
de estágio IV a discussão está aberta entre procedimento paliativo,
ressecção hepática ampliada no lado correspondente ou transplante hepático 17,66.
Nas fases iniciais da experiência com o transplante hepático pensou-se que os
tumores hepáticos primários ou colangiocarcinomas irressecáveis poderiam ser
tratados com um transplante, mas os resultados obtidos foram muito desanimadores
com recorrência precoce e disseminada. Menos de 10% dos pacientes submetidos a
transplante hepático sobreviveram sem tumor por mais de 2 anos. 33
Todavia, nos casos em que não há metástases ganglionar não há diferenças
entre a ressecção e transplante. Portanto o transplante hepático seria
reservado a casos excepcionais 2.
Tumores de 1/3 distal
Nos tumores de
1/3 distal das vias biliares pode-se realizar uma pancreato-duodenectomia com
preservação do piloro. Nessa cirurgia realiza-se o descolamento da vesícula
biliar seccionando-se o ducto hepático comum acima da inserção do ducto
cístico.
Quimioterapia e Radioterapia
Quimioterapia
A quimioterapia
isolada com o uso de 5-fluorouracil ou outras drogas não mostrou nenhuma
influência na sobrevida dos pacientes submetidos ou não a ressecção
cirúrgica. Não se sabe se a manipulação hormonal será útil no tratamento
desses tumores. O uso de anti-estrogênios e inibidores de hormônios
liberadores de hormônio luteinizante foram testados com resultados
desapontadores. Ainda são necessários estudos para definir o valor da
colecistoquinina (CCK), antagonistas de receptores de CCK ou somatostatina no
tratamento dos colangiocarcinomas. O uso de rifampicina como agente citotóxico
foi associado a uma maior sobrevida dos pacientes com colangiocarcinoma, mas
ainda não há comprovação desses dados.
Radioterapia
A radioterapia
foi avaliada em um grande número de pacientes, sendo feito o uso de vários
métodos como radioterapia externa, radioterapia intra-operatória, radioterapia
interna, radioimunoterapia, radiação com partículas carregadas. A
radioterapia externa foi utilizada com o uso de 1,8 a 2,0 Gy/dia até uma dose
total de 45 a 60 Gy. A radioterapia intra-operatória foi administrada até um
total de 5 a 20 Gy, sendo geralmente associada a radioterapia externa. A
radioterapia interna é feita com o uso de stents de Iridio192
ou Cobalto60 instalados por via percutânea ou por via endoscópica.
A radioimunoterapia foi utilizada no tratamento de colangiocarcinomas
intra-hepáticos irressecáveis com o uso de I131-anti-CEA. A
radiação com partículas carregadas foi utilizada com íons de Hélio e
Neônio nos laboratórios Lawrence Berkley71 em pacientes com tumores
peri-hilares. Os dados obtidos de levantamentos feitos pela Jonhs Hopkins16
sugerem que a radioterapia isoladamente não modifica o prognóstico dos
pacientes.
Prognóstico
O prognóstico
dos pacientes com colangiocarcinomas que não são tratados é muito ruim. A
sobrevida, nesses casos, está em torno de 3 meses12.A maior parte
dos pacientes morre das complicações do processo obstrutivo, como colangites
recorrentes, sépsis, insuficiência hepática, de forma que os procedimentos
cirúrgicos têm como objetivo a descompressão das vias biliares. Os fatores
que influenciam o prognóstico dos pacientes são as condições clínicas do
paciente no momento do diagnóstico, uma ressecção completa do tumor, o tipo e
o grau histológico do tumor, a presença de metástases para linfonodos, a
presença de metástases a distância, o grau de invasão hepática e a
presença ou ausência de invasão perineural.
Cheng-Hsi &
cols. fizeram um estudo retrospectivo de 49 casos de colangiocarcinomas hilares
submetidos a ressecção cirúrgica, portanto pós-operatórios, concluindo que
os fatores relacionados à sobrevida foram:
-
Bilirrubina total >10
mg/dL;
-
Ressecção curativa;
-
Tipo histológico;
-
Invasão peninsular;
-
Invasão hepática;
-
Profundidade da invasão
hepática;
-
Acometimento da margem
proximal de ressecção;
-
Acometimento da margem
cirúrgica.
Três desses
fatores, isoladamente, mostraram-se como os mais significativos na avaliação
do prognóstico dos pacientes, sendo esses:1. Bilirrubina total >10mg/dL; 2.
A realização de uma cirurgia curativa e 3. O tipo histológico. Foi observado
nesse estudo que os pacientes que apresentaram bilirrubina pós-operatória
<10 mg/dL apresentaram sobrevida de 24,1% em cinco anos, enquanto pacientes
com bilirrubina pós-operatória >10 mg/dL apresentaram sobrevida de 0%.74
Uma
ressecção tida como curativa dos colangiocarcinomas dá uma sobrevida média
de 22 meses.31 O percentual de pacientes vivos após 1, 3 e 5 anos
são respectivamente de 61%, 28% e 17%.
Conclusão
Os
colangiocarcinomas, apesar de pouco freqüentes devem fazer parte do
diagnóstico diferencial para que se possa realizar um diagnóstico precoce, que
dá a oportunidade do tratamento da doença nas suas fases iniciais, dando uma
maior chance de cura. Mesmo assim só cerca de 60 a 75% dos tumores serão
ressecáveis. Apesar de serem conhecidos e estudados há mais de um século o
colangiocarcinoma é um tumor que representa um grande desafio tanto para o
diagnóstico quanto para o tratamento.
Os métodos
diagnósticos de imagem sofreram grandes transformações com o emprego da
angiografia digital, da ultra-sonografia, da tomografia computadorizada e
atualmente da ressonância nuclear magnética e da colangio-ressonância que
ainda não tem seu papel bem estabelecido no diagnóstico dos
colangiocarcinomas. O surgimento de marcadores tumorais, como o CA19-9, somam-se
ao arsenal diagnóstico para permitir o estabelecimento diagnóstico precoce e
seu acompanhamento pós-operatório. Embora as condutas paliativas tenham
ganhado muitas inovações com o surgimento dos métodos endoscópicos, as
condutas cirúrgicas adotas atualmente não sofreram muitas alterações das
condutas adotadas há algumas décadas, tendo melhoramentos no que se refere à
sobrevida dos pacientes mais devido aos cuidados pré e pós-operatórios (e
intra-operatórios, relacionados aos procedimentos anestésicos) do que à
modificações na técnica cirúrgica. Mesmo assim, a ressecção cirúrgica
ampla continua sendo o melhor tratamento existente. A radioterapia e a
quimioterapia, nos moldes atuais, não parecem mostrar benefícios no
prognóstico dos pacientes com essa patologia.
O tratamento dos
colangiocarcinomas, do ponto de vista cirúrgico, pode já ter atingido o seu
limite, de forma que as inovações e as novas soluções para o tratamento dos
colangiocarcinomas devem vir dos tratamentos adjuvantes, principalmente no campo
da quimioterapia, da imunoterapia, da radio-imunoterapia e da biologia
molecular, que devem receber grandes acréscimos com o incremento dos
conhecimentos quanto aos fatores ambientais, genéticos que podem surgir nos
próximos anos. Por hora o tratamento definitivo dos colangiocarcinomas parece
ainda estar distante.
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Artigo criado em: 2001
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