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Cirrose Hepática
Dr.
Stéfano Gonçalves Jorge
Definição
e etiologia
A
cirrose hepática pode ser definida anatomicamente como um processo difuso de
fibrose e formação de nódulos, acompanhando-se freqüentemente de necrose
hepatocelular. Apesar das causas variarem, todas resultam no mesmo processo.
As
manifestações clínicas das hepatopatias (doenças do fígado) são diversas, variando de
alterações laboratoriais isoladas e silentes até uma falência hepática
dramática e rapidamente progressiva. Esse espectro amplo reflete em parte um
grande número de processos fisiopatológicos que podem lesar o fígado, e em
parte a grande capacidade de reserva do órgão.
Estima-se
que aproximadamente 40% dos pacientes com cirrose são assintomáticos. Uma vez
que os sintomas se manifestam, no entanto, o prognóstico é severo e os custos
econômicos e humanos são altos. A cirrose contabiliza cerca de 26.000 mortes
por ano nos E.U.A., e mais de 228.145 anos potenciais de vida perdidos. O
paciente com cirrose alcoólica perde em média 12 anos de vida produtiva, muito
mais que a cardiopatia (2 anos) e o câncer (4 anos). Esses dados só
reforçam a necessidade de um diagnóstico precoce.

Fígado com cirrose
visto por laparoscopia
A
cirrose pode ser suspeitada quando há achados clínicos ou laboratoriais
sugerindo insuficiência hepatocítica. Esses podem ser sutis como fadiga ou
hipoalbuminemia ou severos como hemorragia por varizes. De qualquer modo, a
evidência de insuficiência hepatocítica requer atitude imediata pelos
benefícios potenciais do tratamento e pelo prognóstico reservado da cirrose
estabelecida. Conseqüentemente, a investigação etiológica deve proceder
paralela ao tratamento, pois o diagnóstico não é encontrado em mais de 30%
dos casos.
Os
diversos processos patogênicos que podem levar mais freqüentemente à cirrose
podem ser vistos na tabela abaixo:
História
clínica
Fatores
de Risco
Sexo:
Homens: acima de 55 anos estão mais sujeitos a cirrose, doenças
biliares e neoplasias hepatobiliares. Mulheres são mais sujeitas a
hepatite autoimune quando jovens e na meia-idade, ou cirrose biliar primária
acima dos 40 anos (a última é 9 vezes mais freqüente em mulheres do que em
homens).
História
familiar: A hemocromatose envolve mais homens que mulheres e é
associado a diabetes, cardiopatia e pigmentação de pele. A deficiência
de alfa-1 antitripsina é associada a doença pulmonar e aparecimento em
pacientes mais jovens. A doença de Wilson é sugerida pela
coincidência de anormalidades neurológicas e faixa etária mais jovem.

Fígado cirrótico em paciente com hemocromatose
Hábitos
pessoais e exposições: dentre todos os fatores, o etilismo merece
ênfase especial devido à sua prevalência. Em homens, estima-se que o
consumo de 60-80 gramas de álcool por dia por 10 anos estabelece risco para o
desenvolvimento de cirrose (em mulheres, 40-60 g).
Antecedentes
pessoais: episódios pregressos de hepatite, uso de drogas
endovenosas, icterícia ou transfusões sangüíneas
aumentam o risco de hepatites virais. Episódios prévios de pancreatite
ou hepatite alcoólicas indicam consumo suficiente de álcool para
desenvolver cirrose alcoólica. Colecistectomia e cirurgia biliar
prévias representam maior risco para desenvolvimento de estenoses biliares e
cirrose biliar secundária.
|
Fatores
de Risco |
Doenças
Hepáticas Associadas |
|
História
familiar |
Hemocromatose,
doença de Wilson, deficiência de a
1-antitripsina, fibrose cística,
talassemia |
|
Etilismo
(geralmente > 50g/dia) |
Cirrose
alcoólica, esteatose hepática, hepatite alcoólica |
|
Hiperlipidemia,
diabetes, obesidade |
Esteatose
hepática |
|
Transfusão
sangüínea |
Hepatites
B e C |
|
Doenças
autoimunes |
Hepatite
autoimune, cirrose biliar primária |
|
Medicações |
Hepatopatias
induzidas por drogas |
|
Exposições
parenterais (drogadição, profissionais de saúde) |
Hepatites
B e C |
|
Homossexualismo
masculino |
Hepatite
B |
|
Colite
ulcerativa |
Colangite
esclerosante primária |
|
História
de icterícia ou hepatite |
Hepatites
virais crônicas ou autoimune, cirrose |
|
Cirurgia
hepatobiliar |
Estenose
dos ductos biliares |
Sinais
e Sintomas
Inespecíficos:
-
Fraqueza,
adinamia, fadiga, anorexia
-
Caquexia:
por (1) anorexia, (2) má- absorção de nutrientes por diminuição do fluxo
de bile e do edema intestinal, (3) redução do estoque hepático de vitaminas
hidrossolúveis e micronutrientes, (4) redução do metabolismo hepático e
muscular pelo aumento das citocinas e (5) balanço alterado de hormônios que
mantém a homeostase metabólica (insulina, glucagon e hormônios
tireoidianos).
-
Equimoses
e sangramentos espontâneos
-
Feminilização:
por acúmulo de androstenediona, pode haver ginecomastia, atrofia testicular,
eritema palmar e spiders (abaixo)

Spider

Ascite
Específicos:
-
Etilismo:
contraturas de Dupuytren, atrofia dos músculos proximais e neuropatia
periférica;
-
Doença
de Wilson:
pode causar insuficiência hepática aguda com anemia hemolítica; pode se
manifestar como cirrose associada a achados neurológicos por envolvimento dos
gânglios basais (distúrbios de movimento, tremores, espasticidade, rigidez,
coréia e disartria) e anéis de Kayser-Fleisher (por deposição de cobre
na membrana de Descemet)

Anéis de Kayser-Fleisher
DIAGNÓSTICO
Exames
laboratoriais (ver também artigo específico aqui):
-
Aminotransferases:
lesão hepatocelular
-
Razão
AST/ALT > 2 e AST < 300 UI/L: sugere lesão por álcool
-
AST
e ALT equivalentes, altas em níveis maiores: hepatites virais, isquemia e
outros
-
Elevação
isolada de AST: investigar coração, músculos, rins, cérebro, pâncreas e
eritrócitos
-
AST
e ALT > 1000: necrose severa (hepatites virais, toxinas e isquemia)
-
Fosfatase
alcalina e gama glutamiltransferase: lesão ductal e colestase
-
FA
> 4 vezes: altamente sugestiva de lesão ductal
-
Elevação
isolada de FA: investigar ossos, córtex adrenal, placenta, intestino, rins e
pulmões
-
Gama
glutamiltransferase:
eleva-se com o uso de álcool, barbitúricos e outras drogas
-
Bilirrubinas:
colestase
-
Elevação
de BD: colestase
-
Elevação
isolada de BI: síndrome de Gilbert e hemólise
-
Albumina
e tempo de protrombina: função sintética do fígado
-
Albumina
(½ vida 28 d): a redução sustentada para menos de 3 mg/dL sugere
hepatopatia
-
Hipoalbuminemia:
investigar enteropatia perdedora de proteínas, nefrose e desnutrição
-
Tempo
de protrombina: prolongado mais que 3 segundos sugere hepatopatia
Exames
de imagem
Biópsia
hepática (ver artigo específico aqui)
TRATAMENTO
Não há um tratamento específico para a cirrose. Como consequência de
diversas patologias diferentes, o tratamento visa interromper a progressão
dessas doenças que, em alguns casos, pode levar também a reversão
parcial do grau de cirrose e hipertensão
portal.
Além do tratamento da doença de base, o portador de cirrose pode apresentar
diversas complicações comuns que devem ser investigadas e tratadas
adequadamente, entre elas a hemorragia por varizes
esofágicas, a ascite (e peritonite bacteriana
espontânea), a desnutrição, a encefalopatia
hepática e o hepatocarcinoma.
Diversos tratamento já foram tentados para reverter especificamente o grau de
fibrose na cirrose, mas nenhum com real eficácia até o momento. Atualmente,
o campo mais promissor é o estudo das células esteladas do fígado, que
estão envolvidas no processo de cicatrização e que poderiam reverter as
mesmas. Estudos também estão sendo realizados para o uso de células-tronco,
que poderiam se diferenciar em hepatócitos e melhorar o funcionamento do
fígado, mas os resultados ainda não são animadores e este tipo de
tratamento não é realizado fora de pesquisas.
O único tratamento definitivo para a cirrose hepática é o transplante de
fígado, onde o fígado cirrótico é subtituído (por um fígado inteiro,
no caso de doador cadáver, ou de parte dele, no caso de transplante
intervivos). Este tratamento (agora regulamentado por nova portaria),
tem uma taxa de sucesso cada vez maior com o aprimoramento da técnica
cirúrgica e medicamentos envolvidos.
Veja
também este texto com dúvidas mais comuns sobre cirrose
Artigo criado em: 2001
Última revisão: 18/01/07
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