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Doença de
Caroli
Dr.
Stéfano Gonçalves Jorge
INTRODUÇÃO
Descrita pela primeira vez por
Jacques Caroli em 1958, é uma doença rara, genética (na maioria dos
casos autossômica recessiva), geralmente diagnosticada antes dos 10
anos de idade. Na Doença de Caroli, há uma dilatação dos dutos
biliares dentro do fígado, que se
dilatam e formam cistos (sacos).
A maioria dos casos também
está associada a outra doença do fígado, como a fibrose hepática
congênita e o cisto de colédoco,
ou à doença policística renal autossômica recessiva (ARPKD). Quando há a presença da fibrose hepática congênita, a criança
costuma manifestar sintomas decorrentes desta (hipertensão portal com
esplenomegalia, ascite, edema e hemorragia por
varizes esofágicas),
tornando a Doença de Caroli uma preocupação apenas secundária. Como
há apresentações (com ou sem fibrose, com ou sem cistos nos rins,
localizada ou difusa) e heranças (autossômica dominante,
autossômica recessiva, não definida) da doença, recomenda-se o termo
Síndrome de Caroli, ao invés de doença. Mantivemos o termo antigo
apenas por ser mais conhecido.
FISIOPATOGENIA
Com a dilatação das vias
biliares intra-hepáticas, há acúmulo de bile e o seu fluxo fica
prejudicado. Isso pode levar a formação de cálculos (pedras) de
bilirrubinato de cálcio no interior dos cistos, que podem permanecer
lá ou se deslocar até um ponto aonde obstruem o fluxo de bile e levam
a infecção dessa (colangite).

Dilatação das vias biliares (em verde)
No entanto, mesmo sem a
formação ou deslocamento desses cálculos o fluxo de bile está
prejudicado e o principal sintoma é o de colangites de repetição. Colangites
são infecções da bile e tendem a ser sérias, com febre, dor local,
inchaço do fígado, leucocitose (aumento dos leucócitos do sangue) e
icterícia (amarelão). Podem evoluir para sepse (infecção
generalizada) e até a óbito se não tratadas.
QUADRO
CLÍNICO E DIAGNÓSTICO
O quadro clínico da Doença
de Caroli é, portanto, o de colangites de repetição. Ao investigar
uma criança com esse quadro, observa-se em exames de imagem (ecografia,
tomografia computadorizada e ressonância nuclear magnética) a
presença de dilatação sacular das vias biliares (que podem ser
confundidas com doença policística hepática, pois costuma estar
também associada a cistos renais). Exames laboratoriais são pouco
significativos e, fora das crises de colangite, observa-se apenas leve
aumento de gama-glutamiltransferase e fosfatase alcalina. O diagnóstico
de certeza seria realizado pela colangiografia endoscópica retrógrada,
mas há um grande risco de infecção causada pela injeção do
contraste. Uma boa opção seria a ressonância nuclear magnética, cuja
utilidade ainda não está comprovada cientificamente nessa doença.

TRATAMENTO
O tratamento
básico consiste no diagnóstico e tratamento precoce das crises de
colangite. Além do risco de cada infecção, com o tempo pode se
desenvolver amiloidose e insuficiência
hepática. Se houver sinais de obstrução por cálculo, este precisa
ser retirado. Um modo de se prevenir o aparecimento desse cálculo é o
uso contínuo de ácido ursodeoxicólico.
Outra grande preocupação é o surgimento de câncer de
vias biliares (colangiocarcinoma),
pois o risco de desenvolver esse tipo de câncer é 100 vezes maior em
quem tem Doença de Caroli do que nas demais pessoas.
Se as
dilatações forem limitadas em uma pequena área do fígado, pode-se
realizar cirurgia para retirada dessa área, com baixa morbidade
(complicações) e baixíssima mortalidade. Uma outra boa opção de
tratamento é o transplante de fígado se houver progressão
para doença grave, com insuficiência hepática, após colangite grave
(se não houver possibilidade de ressecção parcial) ou na suspeita de colangiocarcinoma.
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Artigo criado em: 17/04/05
Última revisão: 17/01/07
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