A
Síndrome de Budd-Chiari é a hipertensão portal com hepatomegalia
causada pela obstrução venosa do sistema de drenagem do fígado. O quadro
clínico foi descrito inicialmente por Budd em 1845 e as alterações
histológicas por Chiari em 1899.
Todo o sangue que
entra no fígado o faz pelo sistema porta (figura 1) ou pela artéria
hepática. Após passar pelos espaço-porta (figura 2), o sangue vai sendo
coletado pelas vênulas hepáticas até as veias hepáticas e, dessas, até a
veia cava inferior, que se une à veia cava superior e entra no lado direito
do coração. Se ocorre alguma obstrução entre as vênulas hepáticas e a veia
cava inferior, o sangue fica "represado" no fígado, que aumenta da tamanho,
causando dor, além de aumentar a pressão em todo o sistema porta (hipertensão
portal). Além das complicações causadas pelo aumento da pressão no
sistema porta, o fluxo de sangue no fígado diminui, levando a morte de
hepatócitos na porção mais "hipóxica" do fígado, a centrilobular (próximo da
veia central), apesar do aumento da pressão na artéria hepática. O fluxo
reduzido no sistema porta pode ainda facilitar o surgimento de uma trombose
da veia porta em 10 a 20% dos casos.
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| Figura 1 |
Figura 2 |
| Cerca de 70-80% do sangue
que chega ao fígado vem pelo sistema porta, um conjunto de veias que
colhe o sangue de todos os órgãos do sistema digestivo e se unem na veia
porta, que entra no fígado e traz, além de pouco oxigênio, todos os
nutrientes e substâncias tóxicas da nossa alimentação, que serão
processados no fígado |
A veia porta se ramifica
até se distribuir por todo o fígado em vasos bem finos, que levam o
sangue até os sinusóides, veias especiais com grandes poros, que
permitem grande contato do sangue com as células principais do fígado,
os hepatócitos, que absorvem e eliminam substâncias tóxicas, além de
dezenas de outras funções. O sangue, já "processado", é coletado pelas
veia centrais, que se unem até formar as veias hepáticas |
Etiologia
As
obstruções das vênulas hepáticas, ou doença veno-oclusiva do fígado,
são incomuns, podendo resultar da ingestão de toxinas, quimioterapia e
radioterapia. Em geral, são distintas das outras obstruções abaixo e não são
consideradas como parte da Síndrome de Budd-Chiari.
As
obstruções das veias hepáticas são geralmente causadas por doenças
que facilitem a coagulação dentro dos vasos (estado de hipercoagulabilidade):
síndromes mieloproliferativas (a principal causa), anticoagulante lúpico,
policitemia vera, hemoglobinúria paroxística noturna, doença de Behçet,
mutações do fator V, deficiências de antitrombina III e proteínas C e S e
uso de contraceptivos ( associado a algum dos fatores anteriores). Outras
causas incluem o carcinoma hepatocelular,
cistos e
abscessos intra-hepáticos
e tumores extra-hepáticos (como rabdomiossarcoma, leiomiossarcoma, leiomioma e
hipernefroma) que podem obstruir as veias hepáticas.
As
obstruções da veia cava inferior podem ser causadas por membrana no
vaso, trombose ou compressão extrínseca (de fora). A primeira descrição de
membrana é atribuída a Osler, em 1879, sendo uma causa rara no Ocidente, mas
uma das principais causas no Oriente e sul da África. Provavelmente, esta
membrana é secundária a trombose.
Histopatologia
Na
lesão aguda, o fígado pode estar muito aumentado, macroscopicamente
congesto, descolorido e com bordas rombas. O exame histológico mostra áreas
periportais normais nos estágios iniciais, mas o tecido perivenular é
escurecido pela congestão sangüínea causada pela trombose venosa. A redução
do fluxo sangüíneo, não compensada pelo aumento reflexo da pressão na
artéria hepática, leva a atrofia e necrose dos hepatócitos centrolobulares.
Seguindo o colapso do estroma, as veias centrais obliteram. Os sinusóides se
tornam carentes de eritrócitos, que estão tipicamente concentrados no espaço
de Disse.
Raramente a doença
hepática resultante é fulminante. Na lesão crônica
os trombos de fibrina se organizam com núcleos fibrosos. Fibras colágenas
finas substituem os cordões hepáticos e o estroma colapsado, e a regeneração
ocorre como um primeiro sinal de fibrose e cirrose. Cerca de 40% dos
pacientes evoluem com cirrose. Como o lobo caudado
drena diretamente para a veia cava inferior por veias pequenas e
freqüentemente sãs, tende a compensar a perda de tecido hepático, algumas
vezes com aumento expressivo, podendo causar até mesmo trombose da veia cava
inferior por compressão.
Manifestações Clínicas
O aparecimento dos
sintomas é freqüentemente insidioso com desconforto em hipocôndrio direito e
ascite progressiva causada pela hipertensão portal. No início, pode
haver icterícia leve com disfunção hepática mínima. Nesse estágio precoce, a
Síndrome de Budd-Chiari pode mimetizar a pericardite constritiva.
Achados clínicos que
sugerem obstrução da veia cava incluem edema de membros inferiores,
episódios de embolia pulmonar e, algumas vezes, dilatação venosa superficial
de membros inferiores, abdome e região lombar.
Alguns pacientes, no
entanto, são assintomáticos. Com diuréticos, o quadro clínico pode
apresentar melhora, mas esse tratamento é apenas sintomático e o aumento da
pressão portal pode levar a hemorragia de varizes
esofágicas e falência hepática progressiva.
Em uma pequena porção
dos casos, a Síndrome de Budd-Chiari apresenta-se como falência hepática
fulminante, evoluindo em oito semanas com
encefalopatia, coagulopatia e necrose hepática maciça.
Investigação
A
ultrassonografia
apresenta sensibilidade superior a 85% e, com o dupplex scanning, é a ferramenta
mais importante no diagnóstico da Síndrome de Budd-Chiari. A ressonância nuclear
magnética (RNM) ainda está em avaliação. A tomografia computadorizada permite
melhor avaliação do parênquima hepático. Massas necróticas ou hiperplasia
regenerativa nodular podem lembrar metástases, que devem ser excluidas por
citologia. A cintilografia, hoje em dia, tem apenas interesse histórico.
A cateterização
angiográfica da VCI e veias hepáticas pode mostrar oclusão ou estreitamento da
VCI por compressão pelo lobo caudado. Se as veias hepáticas forem visualizadas,
podem mostrar lesão típica em "teia de aranha". A medida da pressão intraluminal
de VCI e, se possível, da pressão encunhada das veias hepáticas, é mandatória
para o planejamento cirúrgico.
É de vital importância,
na investigação, uma biópsia hepática para definir o grau de dano hepatocítico e
a extensão da fibrose e cirrose.
Tratamento
A Síndrome de
Budd-Chiari, se não tratada, evolui para óbito em meses ou anos e a resolução
espontânea é rara, portanto deve ser instituido tratamento assim que possível.
O tratamento clínico,
com anticoagulantes, deve ser oferecido para todo
paciente se não houver contra-indicação. O objetivo do tratamento é evitar a
progressão da trombose, mas é insuficiente para melhorar o prognóstico. Casos
raros descritos mostraram trombólise bem sucedida,
se realizada em até 72 horas (preferencialmente 24 horas) do início dos sintomas
na apresentação aguda. Além disso, na apresentação crônica, deve-se avaliar a
presença de varizes esofágicas e outras complicações
da cirrose, como a
encefalopatia hepática e a ascite, que devem ser
tratadas adequadamente.
No caso de teias,
membranas ou obstruções curtas na VCI ou em uma veia hepática, a
angioplastia percutânea (dilatação da veia com balão) seguida de
anticoagulação apresenta bons resultados. A colocação de prótese (stent) ou
laser em estenose ostial das veias hepáticas também foram descritos. Em
obstruções mais extensas envolvendo estenose da VCI, pode ser realizada
cavoplastia com pericárdio. Também pode ser realizada, no caso de obstrução da
VCI e das veias hepáticas, uma ressecção da parte do fígado contendo as porções
terminais das veias hepáticas principais, seguida de anastomose direta no
ventrículo direito.
Outra opção de
tratamento são os shunts ("curto-circuitos").
Trata-se de desviar o fluxo sanguíneo de uma das maiores veias esplâncnicas para
reduzir a hipertensão portal, melhorando a função hepática e prevenindo
complicações. Diferentes formas de shunt foram descritas no tratamento, a
escolha dependendo da VCI pérvia e do gradiente de pressão entre a veia porta e
a veia cava, pois um gradiente mínimo de 10 mmHg é necessário para manter o
shunt pérvio a longo prazo.
No
shunt portocava, a construção portocava látero-lateral é o procedimento
de escolha apenas se a pressão na VCI é substancialmente menor que a portal. Tem
a mais alta taxa de manutenção do shunt. No shunt mesocava,
o shunt em "H" é simples e evita ressecção hilar; como a veia porta e a VCI
supra-renal infra-hepática não são manipuladas, permitem transplante hepático no
futuro. No entanto, tem alta taxa de trombose (24-53%). No
shunt mesoatrial, o bypass do fígado e da VCI é indicada em pacientes nos
quais a VCI está total ou parcialmente ocluída, especialmente se houver oclusão
concomitnte de veias hepáticas.

O
TIPS (derivação intra-hepática portossistêmica transjugular) é um
procedimento radiológico no qual é realizado um "desvio" entre a veia porta e a
veia cava inferior, através da colocação de uma prótese (stent) que é instalado
no local por um cateter que foi introduzido pela veia jugular, no pescoço, até a
veia cava. Com essa derivação, há redução na
hipertensão portal, levando a redução na ascite,
diminuição do risco de hemorragia por varizes
esôfago-gástricas
e melhora nas síndromes hepatorrenal e
hepatopulmonar. Há o risco de desencadeamento de
encefalopatia hepática ou piora da mesma se o paciente já a apresentava, mas
que geralmente pode ser controlada se for leve. O papel do TIPS na Síndrome de
Budd-Chiari é o de servir como "ponte" até a realização de transplante hepático
nos casos graves (cirrose avançada, insuficiência hepática fulminante), uma vez
que há o risco de obstrução da prótese com o passar do tempo (até 67% em 1 ano)
e o procedimento não prejudicará a realização de um transplante (ao contrário
dos shunts cirúrgicos). O TIPS também é eficaz no controle da hemorragia por
varizes de esôfago de difícil controle com medicamentos e/ou tratamento
endoscópico.
O
transplante hepático é indicado no lugar do shunt se há sinais de
insuficiência hepática, especialmente em casos de insuficiência hepática
fulminante, hepatopatia crônica terminal e aqueles que pioraram rapidamente após
realização de shunt. Na maioria das coagulopatias hereditárias, o transplante
também cura a coagulopatia, mas mesmo assim é recomendado o uso de
anticoagulantes com monitorização cuidadosa.
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Artigo criado em: 23/12/04
Última revisão: 17/01/07
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