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Ascite na
Doença Hepática
Dr.
Stéfano Gonçalves Jorge
INTRODUÇÃO
Ascite (também conhecida como "barriga d´água" ou
hidroperitônio) é o nome
dado ao acúmulo de líquido no interior do abdome. Esse líquido
pode ter diversas composições, como linfa (no caso da ascite quilosa,
causada por obstrução das vias linfáticas), bile (principalmente como
complicação da retirada cirúrgica da vesícula biliar), suco
pancreático (na pancreatite aguda com fístula), urina (no caso de
perfuração das vias urinárias) e outras. Mas, no contexto de doença
do fígado com hipertensão portal
(cirrose, esquistossomose, Síndrome
de Budd-Chiari e outras), a ascite é o estravazamento do plasma
sanguíneo para o interior da cavidade abdominal, principalmente
através do peritônio, provocado por uma somatória de fatores.

Paciente com ascite severa.
A ascite, na doença hepática crônica, sinaliza que a doença está
avançada e está relacionada ao aparecimento de outras complicações
da cirrose, como a hemorragia por varizes
esofágicas e a encefalopatia
hepática. Inicialmente, pode ser tratada apenas com diuréticos e a
dieta com pouco sal, mas à medida que a doença progride os rins podem
não suportar os diuréticos e/ou desenvolverem a chamada síndrome
hepatorrenal (falência dos rins causada por alterações
cicrulatórias provocadas pela cirrose) e pode ser necessária a
realização de paracentese (drenagem da ascite através de punção com
agulha). Além de outras complicações, a presença da ascite pode
levar à infecção do líquido ascítico, condição chamada peritonite
bacteriana espontânea, que pode ser severa e com alta mortalidade
se não tratada adequadamente.
Neste texto, será abordada apenas a ascite relacionada a doença
hepática crônica e à hipertensão portal.
FISIOPATOGENIA
A ascite é uma condição muitifatorial, onde diversas alterações
causadas pela doença hepática se somam e culminam no acúmulo de
líquido intra-abdominal. A fisiopatogenia da ascite é muito mais
complexa do que a exposta aqui, que está simplificada por questões
didáticas.
Hipertensão
portal (ver também artigo
específico)
Com o aumento da resistência ao fluxo de sangue através do fígado
(pela desorganização estrutural e/ou contração dos sinusóides na
doença hepática), há um aumento na pressão em todas as veias que
confluem na veia porta (sistema porta hepático).

Sistema porta hepático
Essas veias, que provém da maioria dos órgãos do abdome, tornam-se
dilatadas (pela pressão interna aumentada e pela ação de
vasodilatadores), levando ao estravasamento de um líquido filtrado do
sangue que "escapa" dos vasos.

Corte sagital do abdome mostrando o peritônio envolvendo as alças
intestinais e o fígado (linha preta mais escura).
O órgão que é responsável pela maior parte da produção do líquido
ascítico é o peritônio, uma membrana que reveste a parte
interior do abdome e alguns dos seus órgãos e que é permeável, tanto
ao extravasamento de líquido para a formação da ascite, quanto à
absorção do líquido durante o tratamento.
Pressão
coloidosmótica (ou oncótica)
Apesar dos poros nos capilares sangüíneos, a presença da quantidade
adequada de grandes proteínas plasmáticas, em especial a albumina
(que é maior do que os poros), "segura" a maior parte do
plasma dentro do vaso sanguíneo.

Estrutura tridimensional da albumina
Na cirrose, a quantidade de albumina pode estar reduzida
(hipoalbuminemia) por dois motivos principais: a desnutrição, que é
comum na cirrose avançada, ou a falência na produção da albumina,
que é realizada exclusivamente no fígado, que está comprometido.

Estravazamento do plasma dos capilares sangüíneos
Sem a quantidade adequada de albumina, a pressão oncótica nos vasos
sangüíneos diminui, o que torna mais "fácil" o
extravasamento do plasma que está sendo "empurrado" pelo
aumento na pressão do sistema porta.
Retenção
de sódio e água pelos rins
Sempre que aumenta a pressão em um vaso sangüíneo, o organismo passa
a liberar substâncias que levam à dilatação do vaso, para controlar
a pressão. Se a hipertensão for por algum distúrbio bem localizado,
isso pode ser suficiente até que o problema esteja resolvido. Se for
causado por excesso de líquido em todo o organismo, alivia o problema
até que o mesmo seja eliminado.
Na hipertensão portal, os vasodilatadores são liberados em todo o
sistema porta, o que faz com que a quantidade de vasos dilatados seja
muito grande e não estejam restritos apenas ao sistema porta (há uma
vasodilatação em praticamente todo o organismo). No entanto, a
quantidade de sangue é a mesma, o que faz com que, além de não
resolver completamente o problema de hipertensão no sistema porta, a
pressão sangüínea em todo o organismo esteja reduzida.

No entanto, os rins interpretam a pressão baixa como sinal de que falta
líquido no organismo, portanto passar a usar mecanismos (sistema
renina-angiotensina-aldosterona) para absorver mais sal e água e tentar
elevar a pressão. O resultado disso é que a água e o sal extras,
pelos mecanismos descritos anteriormente, vão aumentar ainda mais a
ascite.
SINTOMAS
E DIAGNÓSTICO
A ascite, quando pequena, não causa sintomas, sendo diagnosticada
apenas por exames de imagem (principalmente a ecografia, que é
realizada rotineiramente no cirrótico para rastreamento do carcinoma
hepatocelular).

Ecografia mostrando ascite (Toshiba-Europa)
À medida que o volume de ascite aumenta, pode-se observar aumento no
volume do abdome, com sensação de "peso", tendência a edema
(inchaço) dos membros inferiores e de testículo (especialmente na
presença de hérnia ínguino-escrotal). Vale lembrar que, apesar da
ascite ser a principal causa de aumento do volume abdominal em
cirróticos, também pode ser causado por gases ou pelo acúmulo de
gordura (obesidade). Ascites moderadas podem ser detectadas clinicamente
pela percussão, onde observa-se submacicez móvel, entre outros sinais.

Paciente com ascite com grande
quantidade de circulação colateral visível no abdome.
A ascite severa, com grande aumento do abdome, é facilmente
identificável. Há um aumento no desconforto, na sensação de
"peso" e há também dispnéia (falta de ar). A dispnéia pode
estar diretamente relacionada à quantidade de líquido e piora quando o
paciente está deitado, pois a ascite pressiona mais ainda o diafragma,
reduzindo o volume dos pulmões. Mesmo assim, a dispnéia pela ascite
deve ser diferenciada da causada por insuficiência cardíaca, da
síndrome hepatopulmonar e do hidrotórax.

Derrame
pleural pela ecografia do site Terason (clique na figura para abrir um
vídeo do exame)
Além
dos sinais e sintomas especificamente causados pela ascite, outros
relacionados à causa da mesma podem estar evidentes. No caso
específico da hipertensão portal,
podem ser observados edema de membros inferiores, spiders, circulação
venosa evidente na parede abdominal, equimoses e sinais de encefalopatia
hepática.
 
Técnica da pesquisa de submacicez
móvel para diagnóstico da ascite. Durante a percussão do abdome,
observa-se a presença de submacicez na parte mais baixa do abdome, se o
paciente estiver em pé, como na figura, ou nos lados, se deitado. Em
seguida, pede-se para o paciente deitar de lado, observanso-se à
percussão que o local de submacicez mudou para o lado que fica abaixo,
refletindo a mudança de posição do líquido. É o achado mais seguro
no exame físico para confirmar a presença de ascite, mas só surge
quando há pelo menos 1.500 mL de ascite (fonte
das figuras).
Para fins de classificação da cirrose na escala de Child-Pugh, a
ascite é dividida entre "ausente", "leve" e
"moderada/severa". A ascite leve englobaria a ascite observada
apenas por exame de imagem (como a ultra-sonografia) e a observada no
exame físico, mas sem grande
aumento do volume abdominal. A ascite moderada seria a que leva a
aumento significativo no abdome, mas sem a presença de falta de ar
(dispnéia) e/ou de abdome tenso pela grande dispensão, que seriam
característicos da ascite severa.
|
Classificação de
Child-Pugh1 |
|
Encefalopatia
hepática2 |
ausente |
1-2 |
3-4 |
|
Ascite |
ausente |
leve |
moderada/severa |
|
Albumina |
> 3,5 |
2,8-3,5 |
< 2,8 |
|
Bilirrubina total3 |
< 2,0 |
2,0-3,0 |
> 3,0 |
|
Tempo de protrombina4 |
1-4 |
4-6 |
> 6 |
|
Pontos: |
1 |
2 |
3 |
|
A: 5-6
pontos |
B: 7-9
pontos |
C: 10-15
pontos |
Notas:
1soma-se os pontos para cada um dos cinco itens; 2classificação
de West Haven; 3na cirrose biliar primária, utilizar os
seguintes valores de bilirrubina total: 1-4 (1 ponto), 4-10 (2 pontos) e
> 10 (3 pontos); 4segundos após o controle - é possível
também utilizar o valor de RNI: < 1,7 (1 ponto), 1,7-2,3 (2 pontos) e
> 2,3 (3 pontos)
Punção
do líquido ascítico
Em
todo
paciente com ascite recém diagnosticada, especialmente quando houver
suspeita de ascite de outra etiologia não relacionada a hipertensão
portal ou de peritonite bacteriana, deve ser colhido o líquido
ascítico para análise laboratorial. Essa coleta é realizada através
de punção, com agulha, da parede abdominal. É um procedimento muito
simples nas ascites moderadas a severas (nas pequenas, pode ser
necessário o auxílio de método de imagem, como a ultra-sonografia ou
a tomografia computadorizada), pouco doloroso (sente-se apenas uma
pontada) e praticamente isento de riscos se realizado adequadamente.
O líquido ascítico coletado é então analisado em laboratório. A
não ser que exista suspeita de peritonite bacteriana, onde parte do
material é aplicado imediatamente coleta em frasco com meio de cultura
líquido (frasco de hemocultura) ou em suspeitas específicas, o
líquido ascítico é colhida para obter dois valores: o gradiente
de albumina soro-ascite e a quantificação de leucócitos
polimorfonucleares.
O gradiente de albumina soro-ascite
é a simples diferença entre a quantidade de albumina no soro
sangüíneo (medida por exame de sangue no mesmo dia da coleta da
ascite) e a do líquido ascítico. Como já apresentado em
fisiopatogenia (acima), a ascite causada
por hipertensão portal é um filtrado do plasma. Deste modo, mesmo que
a quantidade de albumina no sangue esteja baixa, a quantidade na ascite
é muito menor. Já nas ascites de outras causas, como a causada por
câncer, onde há perda de sangue rico em albumina para dentro da
cavidade abdominal, ou na ascite quilosa, causada por extravasamento de
linfa, também rica em albumina, a diferença entre a quantidade de
albumina do soro e da ascite é menor. Assim, o gradiente de albumina
soro-ascite maior ou igual a 1,1 g/dL, particularmente com albumina
sérica relativamente preservada (acima de 3,0 g/dL) tem precisão de
97% de diferenciar a ascite causada por hipertensão portal da de outras
causas.
Os leucócitos polimorfonucleares
(neutrófilos) são células de defesa do sistema imunológico. O achado
de mais de 250 células por mm3 é altamente sugestivo
de peritonite bacteriana espontânea. A presença
desse achado, portanto, exige a coleta de nova amostra para cultura
bacteriana. Essa nova coleta deve ser aplicada em frasco de meio de
cultura líquido (geralmente frasco de hemocultura) imediatamente após
a coleta, na beira do leito, para aumentar a chance de que a bactéria
cresça em cultura, seja identificada e que os principais antibióticos
sejam testados para demonstração da sensibilidade aos mesmos,
orientando as melhores opções de tratamento.
TRATAMENTO
Tratamento
não diurético
-
A abstinência
alcoólica diminui o dano ao fígado, melhora o componente
reversível da hepatopatia alcoólica e pode reduzir a hipertensão
portal, levando a melhor na ascite; além disso, a abstinência em alcoólatras
pode levar a melhora nutricional, com aumento na albumina sérica e
melhora na pressão
coloidosmótica do sangue;
-
Como a retenção
de sódio e água pelo rim é fator fundamental no
desenvolvimento da ascite, a restrição de sódio é primordial no
controle da mesma: recomenda-se uma restrição severa, abaixo de 88
mmol de sódio ao dia (preferencialmente com o auxílio de
nutricionista clínico); não está indicada a restrição de água,
a não ser em casos de hiponatremia (baixo sódio no sangue) severa
(abaixo de 120 mmol/L);
-
A restrição
absoluta ao leito não está indicada;
-
Recomenda-se o
registro diário do peso corporal, uma vez que as perdas mais
evidentes ocorrem por aumento ou perda do líquido acumulado, sendo
um bom parâmetro para observar a resposta ao tratamento;
Tratamento
diurético
O tratamento com diuréticos é recomendado para todos os pacientes com
ascite secundária a hipertensão portal e que não possuam disfunção
dos rins, seja por síndrome hepato-renal ou por outras causas. Como os
diuréticos podem induzir o desenvolvimento da síndrome hepato-renal,
que é uma complicação grave da cirrose e pouco tratável, a sua
introdução deve ser cautelosa.
Os dois diuréticos mais utilizados na ascite são a espironolactona
e a furosemida. A furosemida é um diurético de alça, muito
potente, mas que tem a desvantagem de causar um aumento da eliminação
de potássio pela urina, podendo levar a falta de potássio no sangue -
hipocalemia - uma condição que predispõe a câibras e, em casos mais
severos, a arritmia cardíaca. A espironolactona (aldactone) apesar de
ser um diurético menos potente, tem a vantagem de promover a redução
da eliminação de potássio na urina, contrabalançando a perda
induzida pela furosemida. Por outro lado, a espironolactona tem início
de ação e meia-vida (tempo em que fica no organismo) demorados, o que
pode ser indesejado se houver indução de síndrome hepato-renal.

artigo em criação
PERITONITE
BACTERIANA ESPONTÂNEA
É a infecção do líquido ascítico.
BIBLIOGRAFIA
-
Gerenciamento
da ascite como complicação da cirrose em adultos. World Gastroenterology
Association (link)
-
Runyon
BA. Management of Adult Patients With Ascites Due to Cirrhosis.
AASLD Practice Guideline (link)
-
Mattos,
AA. Ascite: fisiopatologia, diagnóstico e tratamento. Programa de
Educação Médica Continuada da Sociedade Brasileira de Hepatologia
(link)

Artigo
criado em: em criação
Última revisão: 20/04/07
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