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Anatomia Hepática
Dra. Adriana
Maria Alves De Tommaso e Dr. Stéfano
Gonçalves Jorge
O fígado é a maior víscera do corpo humano, correspondendo a 1/50 do
peso corporal em adultos e 1/20 do peso corporal de um neonato. Situa-se no
quadrante superior direito do abdômen, aderido à superfície inferior do
diafragma. É, essencialmente, uma massa de células permeada por um complexo
mas organizado sistema de canais que transportam o suprimento sangüíneo e a
bile. Recebe 25-30% do débito cardíaco.

É composto por lobos anatômicos (D e E) separados pelo ligamento
falciforme. Cirurgicamente, esta divisão é feita ao nível do porta-hepatis
(local onde a artéria hepática e a veia porta se dividem em ramos D e E). Os
lobos D e E cirúrgicos podem ser subdivididos em 8 segmentos os quais são
usados para orientar as ressecções.
 
Suprimento sangüíneo:
veia porta (70-80%) e artéria hepática. Pela veia porta chega ao fígado todo
material absorvido nos intestinos, com exceção de parte dos lipídios que é
transportada por via linfática. Graças a essa característica, ele se encontra
em posição privilegiada para metabolizar e acumular nutrientes e neutralizar e
eliminar substâncias tóxicas absorvidas. A veia porta é formada pela junção
da veia mesentérica superior e veia esplênica e se dirige para o lobo D a
medida que se aproxima do porta-hepatis. Ramifica-se num tronco curto D (lobo
superior D, área à direita da vesícula, porção ântero-superior do fígado)
e num tronco E mais longo (região lateral do lobo E, lobos quadrado e caudado).
Cada ramo terminal tem um território nitidamente definido. A artéria hepática
e seus ramos são bem menos constantes. Em 55% das pessoas ela se origina
diretamente da artéria celíaca mas, no restante, pode se originar da mesentérica
superior, gastroduodenal, gástrica D ou E ou até mesmo da aorta. Dentro do fígado,
seguem os ramos da veia porta. A maior parte do fluxo vai para o estroma, ductos
biliares e vesícula biliar. As veias hepáticas são retas e drenam
posteriormente para a veia cava posterior (a D drena o lobo superior D, a E
drena o lobo E e a intermediária drena a área suprida pelas ramos D e E da
veia porta).


Suprimento
nervoso:
fibras simpáticas de T7 a T10, fazendo sinapse no plexo celíaco, junto com o
vago D e E e o nervo frênico D. As fibras nervosas acompanham a artéria hepática
e os ductos biliares dentro do parênquima e inervam a cápsula de Glisson.
Suprimento linfático:
linfáticos emergem do porta-hepatis e a maioria acompanha a veia cava inferior
para dentro do mediastino.
Avaliação
clínica:
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Inspeção:
geralmente é de pouco valor diagnóstico. Quando há importante hepatomegalia
ou grandes nódulos pode-se visualizar à inspeção.
-
Palpação e
percussão: no Rn
o lobo E é maior do que o D. Por volta de 1 ano de idade os lobos são de
tamanho semelhante e em crianças acima de 1 ano o padrão passa a ser o do
adulto (lobo D>E). O fato de o fígado ser palpável não implica,
necessariamente, presença de hepatomegalia. Para avaliar melhor a presença de
hepatomegalia é necessário fazer a hepatimetria pois, em algumas ocasiões
(ex.: derrame pleural) o fígado está apenas rebaixado. Também podemos obter
alguma informação sobre a natureza da doença hepática através da palpação.
A borda normal é algo afilada e de consistência macia e a superfície normal
é lisa. A percussão tem grande importância em detectar o tamanho do fígado,
sendo o único capaz de detectar a redução de seu tamanho (ex.: cirrose hepática).
-
Ausculta:
de valor na detecção de fluxo sangüíneo hepático aumentado em lesões
vasculares tais como tumores e hemangiomas. Um sopro arterial sobre o fígado
pode indicar câncer ou hepatite alcóolica aguda. O sopro venoso da hipertensão
porta é audível entre o apêndice xifóide e o umbigo.
Histologia:
-
O
fígado é constituído principalmente por células hepáticas ou hepatócitos.
Os hepatócitos têm formato poliédrico e medem 20-30 mm.
Estes se agrupam em placas que se anastomosam entre si formando unidades morfológicas
chamadas lóbulos hepáticos. Nestes, os hepatócitos se dispõem em placas
orientadas radialmente. Cada placa é constituída por células dispostas em uma
só camada. Cada lóbulo é uma massa poliédrica de tecido hepático de cerca
de 0.7 por 2 mm de tamanho. Os lóbulos se encostam uns nos outros em quase toda
sua extensão. No entanto, em algumas regiões, os lóbulos ficam separados por
tecido conjuntivo e vasos. Estas regiões ocupam os cantos do poliedro e recebem
o nome de espaços-porta.

-
Cada espaço-porta
é composto por uma vênula e uma arteríola (ramos da veia porta e da artéria
hepática, respectivamente), um ducto biliar, vasos linfáticos e nervos. Este
conjunto é cercado por uma capa de tecido conjuntivo, contínua com a cápsula
de Glisson, que recebe o nome de placa limitante. O espaço-porta também pode
receber o nome de tríade porta pois, suas estruturas predominantes são a vênula,
a arteríola e o ducto biliar. Da tríade, o sangue atravessa a placa limitante
através de canais controlados por esfíncter. Esses canais descarregam o sangue
nume rede de capilares chamada de sinusóides.
-
Os
sinusóides são capilares que ocupam o espaço entre as placas de hepatócitos.
Suas paredes são revestidas de células endoteliais típicas e macrófagos que,
no fígado, recebem o nome de células de Kupffer. As células de Kupffer têm
função fagocitária e pertencem ao sistema retículo endotelial. O estreito
espaço que separa o sinusóide dos hepatócitos recebe o nome de espaço de
Disse o qual é composto por fibras reticulares. Devido à sua reduzida dimensão
só pode ser melhor estudado com o advento da microscopia eletrônica. Um
terceiro tipo de célula na parede do sinusóide é a chamada célula de Ito ou
“célula gorda” que, supostamente, teria um papel na fibrogênese. Os
capilares sinusóides desembocam em uma veia localizada no centro do lóbulo
chamada veia centrolobular a qual é o ramo inicial da veia hepática.

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As
veias centrolobulares atravessam os lóbulos em sentido longitudinal e, ao saírem
destes, desembocam em ângulo reto nas veias sublobulares que penetram nas trabéculas
do estroma hepático e se unem para formar as veias hepáticas.
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Como
o sangue percorre os sinusóides da periferia para o centro dos lóbulos, os
hepatócitos estão sob gradiente de composição sangüínea. Os mais periféricos
recebem em primeiro lugar tanto nutrientes quanto oxigênio, com eventuais
toxinas trazidas pela veia porta e artéria hepática. Isto explica as diferenças
entre as células centrolobulares e as perilobulares.
-
Além
do espaço de Disse, outra estrutura que fica entre os hepatócitos é o canalículo
biliar. Este não tem parede própria e é a primeira estrutura coletora de
bile. Os canalículos se dirigem do centro para a periferia onde desembocam em
um ducto curto denominado canal de Hering. Os ductos biliares gradualmente se
alargam até se fundirem formando o ducto hepático que sai do fígado. O índice
de número de ductos biliares/número de espaços-porta
deve ser superior a 0.4 (0.9-1.8 em crianças normais). Para tanto, é
necessário presença de, pelo menos, 10 espaços para avaliação. Índice £
0.4 indica hipoplasia ductal.
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Ácino hepático: é a unidade funcional do fígado. Compreende massa de
parênquima dependente do suprimento sangüíneo através do trato porta. As células
estão dispostas em zonas concêntricas que cercam os vasos aferentes terminais.
Zona 1 (periportal) – mais próxima ao espaço porta, é a primeira a receber
sangue com alto conteúdo de oxigênio, insulina e glucagon. Tem alta taxa metabólica
e é a última a sofrer necrose e a primeira a mostrar sinais de regeneração.
Zona 3 (centrilobular) – mais próxima às veias hepáticas terminais, recebe
sangue por último. Aqui estão muitas das enzimas que participam de
biotransformação (NADPH citocromo P450-redutase). Zona 2 (mediolobular) –
recebe sangue com conteúdo intermediário de oxigênio.
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Microscopia
eletrônica: a
organela mais evidente do hepatócito é o retículo endoplasmático. No RER é
que ocorre a síntese de várias proteínas entre as quais a albumina,
protrombina e o fibrinogênio. Outro componente importante é o glicogênio, de
quantidade bastante variável. Funciona como um depósito que a célula mobiliza
quando ocorre hipoglicemia.
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Colorações
específicas:
-
Hematoxilina-eosina

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Tricômico
de Masson: cora o colágeno em azul
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Sais de
prata: cora fibras reticulínicas
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Azul da Prússia
de Perls: cora o ferro (coloração alaranjada)
-
Rodanina:
cora o cobre
-
PAS: cora,
em rosa, material eosinofílico sugestivo de acúmulo de alfa-1-antitripsina. Após,
é utilizada diastase para digerir o glicogênio que também se cora pelo PAS. O
material correspondente a A1AT mantem-se presente enquanto que, o glicogênio é
digerido pela enzima.
Fisiologia:
-
Síntese proteica:
o hepatócito renova suas próprias proteínas e sintetiza várias outras para
exportação como albumina, fibrinogênio, protrombina e lipoproteínas.
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Secreção de
bile: função exócrina.
Os principais componentes da bile são a bilirrubina (digestão da hemoglobina
pela célula de Kupffer) e os ácidos biliares (90% circulação enterohepática
e 10% hepatócito).
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Depósito de
metabólitos:
glicogênio, vitamina A, gorduras neutras.
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Metabolismo:
gliconeogênese
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Desintoxicação
e Neutralização:
muitas toxinas são neutralizadas pelos processos de oxidação, acetilação,
metilação e conjugação. As enzimas que participam deste processo estão
localizadas no retículo endoplasmático liso.

Artigo criado em: 2003
Última revisão: 14/08/04
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